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	<title>Entrevistas Portal3</title>
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		<title>Papos &amp; Pautas: Tânia Carvalho</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Aug 2011 16:54:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>equipeportal3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Paola Oliveira e Ana Paula Figueiredo Estagiárias de Jornalismo Colaboração de Marcelo Garcia A jornalista Tânia Carvalho abriu as portas de sua casa e de sua vida numa tarde chuvosa para a equipe do Portal3. No aconchego do lar, repleto de fotografias de momentos marcantes, falou sobre seu fascínio pelo jornalismo, que vem desde cedo, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=26&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paola Oliveira e Ana Paula Figueiredo<br />
</strong><em>Estagiárias de Jornalismo<br />
Colaboração de Marcelo Garcia </em></p>
<p>A jornalista Tânia Carvalho abriu as portas de sua casa e de sua vida numa tarde chuvosa para a equipe do <strong>Portal3. </strong>No aconchego do lar, repleto de fotografias de momentos marcantes, falou sobre seu fascínio pelo jornalismo, que vem desde cedo, quando ainda morava em sua cidade natal, Bagé. Relembrou de como começou na carreira, meio que por acaso, e deu dicas valiosas para quem pretende seguir na profissão.</p>
<p>A primeira apresentadora do <em>Jornal do almoço </em>atualmente faz dois programas na TVCOM, o <em>Gurias de quinta</em>, que vai ao ar toda quinta-feira, às 17h, e o <em>Café TVCOM</em>, na companhia de Tulio Milman, Tatata Pimentel, David Coimbra, Thedy Corrêa e José Antônio Pinheiro Machado, além do programete <em>Boa dica</em>, da Itapema FM e <em>Gaúcha Comportamento, </em>na Rádio Gaúcha, à meia-noite de domingo.</p>
<p>A entrevista com Tânia Carvalho integra a série Papos &amp; Pautas, em que grandes nomes do jornalismo gaúcho são entrevistados por estagiários do <strong>Portal3. </strong>Já passaram por essa o diretor do Jornal <em>JÁ, </em><span style="text-decoration:underline;"><a href="http://portal3.com.br/wp/conversa-de-jornalista-elmar-bones">Elmar Bones</a></span>, o repórter e editor especial de <em>Zero Hora</em> <span style="text-decoration:underline;"><a href="http://portal3.com.br/wp/entrevista-historias-de-vida-moises-mendes">Moisés Mendes</a></span> e o comentarista e colunista esportivo <span style="text-decoration:underline;"><a href="http://portal3.com.br/wp/guerrinha-aconselha-%E2%80%9Cquem-esta-comecando-tem-que-botar-na-cabeca-que-nao-sabe-nada%E2%80%9D">Adroaldo Guerra Filho</a></span>, o Guerrinha.</p>
<div id="attachment_29361" class="wp-caption aligncenter" style="width: 425px"><a href="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC030753.jpg"><img class="size-full wp-image-29361" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC030753.jpg" alt="" width="415" height="309" /></a><p class="wp-caption-text">Tânia relembra momentos de sua carreira. Crédito foto: Marcelo Garcia</p></div>
<p><strong>Portal3 – Onde nasceste?</strong></p>
<p><strong>Tânia Carvalho – </strong>A minha história é muito longa, e quanto mais velha eu fico, mais longa ela vai ficando. Nasci no dia de Natal de 1942, em Bagé. Minha mãe achava que ninguém nascia no dia de Natal. Fui lá eu nascer num dia bem lindo, numa manhã ensolarada, na cidade que adoro. Voltei lá faz uns dias, para o <em>Jornal do almoço</em>. Foi emocionante, chorei que me matei. A lágrima não corria, ela saltava de chuveirinho <em>(brinca)</em> de tão emocionada que fiquei de voltar à minha terra. Nasci na Rua General Osório. Fui lá ver a minha antiga casa. Agora é uma loja de tecidos. Achei muito engraçado, porque consegui ver todas as casas, mas não vi a minha, pois a fachada estava coberta com painéis por causa da loja de tecido. Tenho ainda família em Bagé. Primos, amigos, as amigas da minha mãe, que são umas senhorinhas. Minha mãe teria 88 anos, mais até. Então, elas me dizem: “Eu era amiga da tua mãe, era amiga das tuas tias”. Fiquei muito tocada com isso.</p>
<p><strong>Portal3 – Bagé é grande ou parece mais com cidade do interior?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Bagé é uma pequena cidade, mas é uma cidade muito importante porque foi a primeira do Rio Grande do Sul a ter automóvel e luz elétrica. Foi uma cidade que resistiu às fronteiras. Tem umas lindas histórias de Bagé que sempre soube e agora fiquei sabendo mais, nos 200 anos da cidade. Conforme o Tatata <em>(Pimentel)</em>, estavam festejando os meus 200 anos <em>(risos)</em>, e não os da cidade. Ele adora pegar no meu pé, mas é meu grande amigo. Nasci lá, morei em Bagé até os dez anos. Depois, minha mãe veio para Porto Alegre, e eu vim também, para estudar aqui. Minha mãe se casou novamente. Desde 1952, moro em Porto Alegre.</p>
<p><strong>Portal3 – O que faziam os teus pais?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Meu pai trabalhava num banco. Minha mãe, junto com a minha avó e as minhas tias, costurava. Minhas tias eram modistas de alta costura mesmo, e a minha mãe bordava chapéus, bolsas. Digamos que ela teve a primeira butique de Bagé. Ela vinha a Porto Alegre antes das festas, das exposições de gado e trazia coisas para bordar: vestidos, chapéus, bolsas e sapatos. Elas trabalhavam com coisas e artes manuais, com muito talento. Tenho fotos delas com as roupas bordadas, os vestidos maravilhosos. É muito lindo.</p>
<p><strong>“Sempre trabalhei com jornalismo, antes de</strong></p>
<p><strong>existir jornalismo dentro da faculdade.”</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Portal3 – Tu tens formação acadêmica?</strong></p>
<div id="attachment_29362" class="wp-caption alignleft" style="width: 388px"><a href="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03108.jpg"><img class="size-full wp-image-29362" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03108.jpg" alt="" width="378" height="283" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Arquivo pessoal.</p></div>
<p><strong>Tânia – </strong>Nunca fiz universidade, nunca fiz faculdade de Jornalismo, que foi uma coisa que me cobrei durante séculos. Mas sempre trabalhei com jornalismo, antes mesmo de existir jornalismo dentro da faculdade. Não tenho certeza, mas acho que era um curso dentro de outro. Me cobrei muito por isso. Fiz o ginásio no Bom Conselho, fiz o clássico no Júlio de Castilhos. Quando ia fazer a faculdade, me casei e fui morar em São Paulo. Casei com um ator <em>(Geraldo Del Rey) </em>e convivi muito no meio de cinema, de teatro e de televisão. Estavam começando as novelas na TV Excelsior, e imediatamente fomos para Lisboa, onde ele foi trabalhar em um filme.</p>
<p><strong>Portal3 – Como começastes a trabalhar como jornalista? </strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>No Yázigi, em Porto Alegre. Foi ai que comecei. Tudo que acontecia, eu queria mandar notícias para os jornais. Não tinha xerox, batia à máquina com papel carbono ou passava no mimeógrafo para mandar a mesma notícia para vários jornalistas e vários jornais. Se tinha uma exposição no Yázigi, uma exposição de gravuras do Salvador Dalí ou do Picasso, eu queria enviar a notícia. Então, já fazia, sem saber, o jornalismo.</p>
<p><strong>Portal3 – A primeira assessora de imprensa.</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Exatamente. Assessoria de imprensa sem existir assessoria de imprensa. Isso era nos anos 60, final dos anos 50. Quando casei e fui morar em São Paulo, imediatamente fui contratada pela Editora Abril, para o departamento comercial, só que eu não vendia nada. Pelo contrário, dizia: “Coitadas das pessoas, não têm dinheiro para comprar anúncio”. Caía na conversa dos outros, e não tinha uma boa conversa comercial. Então uma colega e amiga me disse: “Vem para a redação”. Eu tinha um bom texto, lia muito, sempre fui uma grande leitora. Aí fiquei na redação e foi uma grande realização, tanto que digo, a minha universidade, a minha faculdade foi a Editora Abril, em São Paulo, onde trabalhei por sete anos. Passei pela revista <em>Cláudia</em>, pela <em>Manequim. </em>Quando fundaram a <em>Realidade</em>, eu estava lá. Convivi com toda essa gente fantástica que fez um novo jornalismo no Brasil. Meus amigos todos estão espalhados por aí ou são escritores. Tenho uma turma de colegas que foram os meus professores, a minha faculdade.</p>
<p><strong>Portal3 – Mesmo assim, nunca pensastes em cursar jornalismo?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Quando voltei para Porto Alegre, nos anos 70, fui trabalhar em galeria de arte. Eu me cobrava, dizia: “Vou fazer uma faculdade, não é possível, eu vou fazer”. Aí o Tatata <em>(Pimentel) </em>me dizia que eu é quem deveria dar aula. “Eu sou professor de universidade, o que tu quer saber?”, ele provocava. Então acabei indo por outro caminho, me conformando e aceitando um pouco a minha não-formação com a formação que tive por meio de todas essas revistas. Na <em>Realidade </em>não trabalhei, só convivi com as pessoas que estavam criando. Me consolei um pouco, fiquei mais tranqüila, me apaziguei, achando que realmente eu tinha um bom conhecimento e que valia seguir a profissão, e a minha curiosidade era suficiente para aprender o que não tinha aprendido.</p>
<p><strong>Portal3 – A Editora Abril, em São Paulo, foi mesmo o centro de um novo jornalismo.</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Foi na Editora Abril onde nasceu tudo, no final dos anos 60 e começo dos anos 70. Morei dois anos em Portugal, morei em Lisboa, em Porto, e de lá mandava as matérias e ficava imaginando: “O que será que está acontecendo agora no Brasil?”. Era um momento muito punk no país. Quando voltei, em 1967, meu filho Fabiano estava nascendo, eu me senti quase que responsável por também contar aquela história.</p>
<p><strong>Portal3 – Nas revistas tu produzias textos? Como era?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Escrevia, produzia fotos, marcava as pautas, eu fazia o diabo. Era muito amiga do pessoal do teatro, de televisão e de cinema. Era amiga do Glauber <em>(Rocha)</em>, da Helena Inês, da Dina Sfat, amiga do pessoal do Teatro Oficina. Então isso me dava outra abertura, outro tipo de pensamento, acompanhando também todos esses movimentos da Nara Leão, da bossa nova, do que estava surgindo no momento: a <em>(Maria) </em>Bethânia cantando <em>Carcará</em>, o Caetano <em>(Veloso) </em>e o <em>(Gilberto) </em>Gil chegando à rodoviária de São Paulo. Foi muito legal porque acompanhei todos esses movimentos do Cinema Novo, o novo movimento das novelas, atores de teatro revolucionário fazendo uma revolução dentro do teatro brasileiro, com peças políticas, etc. Era um momento raro. Fiquei sete anos na Editora Abril entre idas e vindas, como freelancer, porque me afastei, fui para Portugal. Em 1970 vim para cá, mas continuei trabalhando, fazendo freelancer, fazia muito aqui de Porto Alegre. Trabalhei numa revista chamada <em>Wonderful</em>, uma revista magnífica de jornalismo. Seria a precursora da <em>Caras</em>. Daniel Mars e uma gente muito legal trabalhava nessa revista. Isso sempre me deixou em contato com os grandes jornalistas e os nomes do jornalismo.</p>
<p><strong>Portal3 – Como chegaste à TV?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Me separei em 1970 e vim passar férias em Porto Alegre, com o meu menino, o Fabiano. Tinha saído da Editora Abril, estava mais ou menos, e resolvi morar aqui. Quis ficar perto da minha mãe, da minha família, dos meus tios. Resolvi morar em Porto Alegre. Fui trabalhar na Galeria Esfera do Yázigi e fui trabalhar também com um costureiro que se chamava Nazaré, para organizar o fichário dele. Estava arranjando uns bicos para sustentar meu filho, pois, sendo ex-mulher de ator, não podia contar muito com a mesada dele. Então fui à luta.</p>
<p><strong>Portal3 – Por que voltaste a Porto Alegre? </strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Para refazer minha vida. Como morava com minha mãe, consegui juntar um dinheiro, e, na primeira oportunidade que tive, fui para a Europa. Fui com um grupo de amigos de São Paulo, visitar galerias, já que estava trabalhando numa galeria, fui ver museus. Quando voltei, dei uma entrevista na TV, no programa da Célia Ribeiro. Naquela época, quando a gente ia para a Europa, voltava e dava entrevista porque era uma coisa fantástica. Quando voltei, a Célia Ribeiro me fez uma entrevista, ela e o Luiz Carlos Lisboa perguntaram: “Tu não quer vir trabalhar na TV?”. Eu disse: “Ah, acho que quero. Quanto pagam?”. Lembro que era 1.400, não lembro que moeda era na época, e o apartamento que eu queria me mudar custava 700 e poucos. Então pensei: “Claro, dá para pagar o apartamento e sobra quase o dobro”. Comecei a trabalhar na TV para poder me mudar. Alugamos um apartamento no mesmo edifício da minha mãe. Enfim, estreei em um programa de TV, que estava começando em 1972, que era o <em>Jornal do almoço</em>, fui a primeira apresentadora. Então<em> </em>comecei<em> </em>uma carreira em televisão. Já tinha experiência de São Paulo, mas de brincadeira, de fazer teatro com o pessoal do Teatro Oficina. Fiz um teatro infantil, eu estava grávida e fazia um menino gordo. Foi muito engraçado. Eu era um travesti, como eu dizia. Uma mulher grávida fazendo um menino gordo, era uma peça infantil revolucionária, com um texto fantástico, para que não houvesse dúvidas de que estávamos fazendo peça infantil, mas também os adultos queriam levar uma mensagem legal. Era essa a grande preocupação em um momento de censura.</p>
<p><strong>Portal3 – Como foi o início no <em>Jornal do Almoço?</em></strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Foi um terror! Não sabia fazer entrevista. Fazia uma pergunta para a pessoa, ela respondia e eu ficava satisfeita. Dava pausas, que não era a pausa de TV. Ficava aquele silêncio, e o diretor gritava: “Falaa!” <em>(risos)</em>. Não tinha ponto ainda. Todo mundo tendo que fazer o final, e eu: “Ah, que interessante!”. A Romanita Disconzi foi a minha primeira entrevistada. Ela fazia uma arte revolucionária na época.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>“Adoro, amo viajar! É a melhor coisa do mundo </strong></p>
<p><strong>que alguém pode fazer por si mesma.”</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_29336" class="wp-caption alignleft" style="width: 358px"><a href="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03094.jpg"><img class="size-full wp-image-29336 " src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03094.jpg" alt="" width="348" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">A primeira turma do &quot;Jornal do almoço&quot;. Foto: Arquivo pessoal.</p></div>
<p><strong>Portal3 – Qual a principal diferença do jornalismo daquela época, em que começaste no <em>Jornal do almoço</em>, em comparação com hoje?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Primeiro é toda a tecnologia que nós não tínhamos. Adorava ficar vendo um colega que trabalhava com os filmes que chegavam e ele colocava numa roda imensa para secar, para no outro dia então passar, pois eles registravam em filmes, os jogos de futebol, tudo. Os rolos das entrevistas de rádio eram num gravador enorme<em> </em>e era preciso carregar uma mala. Lembro que no primeiro festival de cinema que fiz a cobertura com telefone celular, o telefone era quase do tamanho de um tijolo e tinha uma mala para carregar, que era o carregador, a estação do telefone. Então, toda essa geração de hoje é diferente. Por exemplo, eu aqui, no celular, mando uma mensagem para uma amiga, recebo o recado do meu marido. Essas coisas no jornalismo que são tão importantes, de estar conectado, não existiam. Lembro que brigava com os meus produtores: “Vocês para produzirem têm que ir na casa das pessoas, têm que falar com as pessoas”, porque como é que nós íamos falar? Só por telefone, e nem sempre era eficiente, eficaz. Se tu querias fazer uma ligação interurbana, levava três, quatro, cinco horas. Tu ficavas em casa esperando. Então tudo que a gente tem de tecnologia agora nos abre todas as fronteiras. Existia também uma coisa mais familiar no jornalismo, não tinha tanta ética, claro que sempre teve ética, mas era uma coisa mais de amigos, de grupos, era mais familiar.</p>
<p><strong>Portal3 – Como foi a transição para o mundo novo da tecnologia?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Foi muito legal! Fui uma das primeiras a ter computador. Tenho tudo ao meu alcance, na minha mão, com a ajuda, naturalmente, dos meus filhos, que são dois jovens ligados em todas as redes. Tenho um que é blogueiro oficial, o Diogo. Ele tem um blog <a href="http://www.destemperados.com.br/">www.destemperados.com.br</a>. Ele fez Direito, deixou de ser advogado no departamento jurídico de uma grande empresa para ser blogueiro e se dedicar ao que ele gosta, comidas, restaurante.</p>
<p><strong>Portal3 – E pelo jeito, viajar também.</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>E viajar. Isso eu passei para ele, estava no meu DNA, foi direto.</p>
<p><strong>Portal3 – Quando moraste na Europa, viajaste bastante?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Viajei muito, muito. Geraldo <em>(Del Rey) </em>e eu compramos um carro, morávamos em Portugal, e íamos passar a Semana Santa em Paris. Ficamos quase dois anos morando fora. Íamos para a França, para vários lugares, de carro, com os amigos, então viajamos muito. Eu sempre amei, adorei viajar. Mais tarde viajei muito também. Depois que vim morar em Porto Alegre, fui a muitos lugares: Índia, China, Japão, Israel, Tailândia. Meu Deus do céu, viajei pelo mundo.</p>
<p><strong>Portal3 – Quantos países conheces?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Fora os lugares convencionais, como se diz Elizabeth Arden, Paris-Nova Iorque-Londres, também fiz todos os países mais exóticos, como Hong Kong, que eu adoro! Fui a Pequim, Tóquio, Bangkok.</p>
<p><strong>Portal3 – De qual tu mais gostaste?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Ah, não dá para dizer. Gosto talvez daquele que eu não conheça ainda porque adoro as cidades que todo mundo gosta: Paris, Londres, Nova Iorque. Tenho paixão por Nova Iorque, adoro Paris. Me apaixonei agora por Berlim, no ano passado. Fui a Berlim, voltei a Amsterdã, que eu já conhecia, já tinha ido várias vezes, mas meu marido não, então fomos à Amsterdã, Berlim, Praga. Adoro, amo viajar! É a melhor coisa do mundo que alguém pode fazer por si mesma. Não fume, não compre bolsa de grife, guarde para viajar, porque é a melhor escola que Deus colocou no mundo. Tenho vontade de colocar uma mochila nas costas e sair viajando pelo mundo. É uma coisa tão boa, que te ensina tanto, a cada esquina tu aprende coisas raras. Agora a mochila já me pesa mais, né <em>(brinca).<strong> </strong></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>“Acho que nasci jornalista, sem </strong></p>
<p><strong>saber que existia o jornalismo.”</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Portal3 – Já nascestes jornalista?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Acho que nasci jornalista, sem saber que existia o jornalismo. Adorava ficar ouvindo rádio. Quando tínhamos telefone em Bagé – um dos primeiros telefones que a cidade teve, foi na nossa casa, que era uma casa cheia de gente –, adorava telefonar para contar histórias. “Consegui copiar a letra do bolero”, dizia para a minha prima, pois eu ficava ouvindo até conseguir copiar a letra. Imagina, na internet, hoje, se copia tudo, tem todas as letras, de todas as músicas do mundo. Era sempre eu que dava as notícias da família. Adorava quando íamos a um lugar e tinha jornal, quando ia à barbearia, na loja do meu tio e tinha um jornal, eu era fascinada. Sempre fui, sempre tive esse fascínio. Tenho um primo que aprendeu a ler recortando as letras do jornal, e isso eu achava uma coisa maravilhosa. Também queria aprender a ler recortando as letras do jornal.</p>
<p><strong>Portal3 – Chegaste a dar aulas, substituir alguns professores do Yázigi. Não pegou o gosto por dar aula?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Não. Eu odeio ser professora. Jamais seria professora. Não sei ensinar, não tenho método. Vejo os professores e tenho o maior respeito, mas jamais seria professora. Tentei até fazer o Normal, antes de ir para o clássico no Júlio de Castilhos. Tentei fazer o Normal no Instituto de Educação, mas vi que não era o meu barato, que eu tinha que sair dali correndo porque ia fazer os meus alunos muito infelizes <em>(brinca)</em>. Eu ia odiar.</p>
<p><strong>Portal3 – Hoje tu pertences a um grupo seleto de jornalistas dedicados a entrevistar pessoas. Que técnicas costumas utilizar? </strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Minha maior técnica para entrevistar alguém, a maior, que não é segredo, é saber com quem estou falando e o que a pessoa fez. Entrevistei a Márcia Tiburi <em>(filósofa e escritora)</em>, e para entrevistá-la li quase metade do seu novo livro. Como vou entrevistar uma pessoa sem conhecer sua obra? Isso é muito comum hoje em dia. A pessoa diz assim: “Como é o teu livro?”. Não. O mínimo que eu posso saber é como a pessoa criou aquele personagem. Isso é o que mostra o interesse e que diferencia o jornalista do jornalista de futilidades. Tenho que saber. Como vou entrevistar a Fernanda Montenegro <em>(atriz)</em> sem conhecer a obra dela, o que ela fez, quais são seus filmes? Isso é o mínimo que alguém te pede para ser um bom entrevistador. Tem que ler, tem que saber o que está acontecendo no mundo, tem que estar na internet para saber as notícias.</p>
<p><strong>Portal3 &#8211; Teve alguém que tu admiravas muito e teve que entrevistar e ficou muito nervosa?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Olha, tu sabes que as pessoas que eu admiro muito são as pessoas mais fáceis de dar entrevista. Tive de entrevistar Fernanda Montenegro, Paulo Autran&#8230; Os mais difíceis são os muito jovens, que se acham estrelas de primeira grandeza. Esses são difíceis. A Malu Mader foi uma grande surpresa, agradabilíssima, pois a Malu é uma pessoa com muita alma, que não está só o corpo ali.<strong> </strong>Eu sou bipolar, trifásica, bivolt, fico falando mil coisas ao mesmo tempo, mas nessa profissão é bom isso <em>(risos)</em>. Não tenho uma pessoa que eu diga: “Ai, eu entrevistei fulano de tal.” Acho que todas as entrevistas são legais, são boas quando tu consegues tirar de alguém uma coisa muito legal, muito sanguínea, que vem lá da alma da criatura. Isso é sempre legal.</p>
<p><strong>“Para trabalhar na TV tem que</strong></p>
<p><strong> ter talento, curiosidade e sorte.” </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Portal3 – Como sabes até onde cabe ir em uma entrevista?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Também boto meu sangue, ovários, intestino, pulmão, coração em uma entrevista. Faço entrevista com todos os órgãos, alerta todo tempo, e gosto muito. Quando tu pões a tua alma na mesa, consegues isso, consegues fazer uma boa entrevista. Minha segurança está em lidar com as pessoas, e acho que sei, aprendi um pouco. Às vezes ainda aprendo e tomo na cabeça.</p>
<p><strong>Portal3 – Já passaste por alguma saia justa em uma entrevista?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Já, mas como sou honesta, me saí bem. O desgraçado do Gerald Thomas <em>(dramaturgo e diretor teatral)</em> uma vez me perguntou: “Você voltou da Europa agora. Não viu uma ópera que tem uns puns e uns arrotos, que é toda ela feita com esses sons do corpo?”. Respondi: “Bah, não vi”, porque o normal seria dizer: “É claro que vi e tal”. Mas eu disse que não tinha visto. E ele insistiu: “Mas você devia ter visto”. Eu falei que não tinha visto e ele respondeu: “Ainda bem que tu não viste, porque não existe, acabei de inventar”. Então a honestidade no jeito que tu fazes as coisas é importante. Uma vez me pediram para não falar em determinado assunto. Eu disse: “Não me pede porque agora vou falar” <em>(risos)</em>. Acho horrível. A lealdade com que tu tratas a tua profissão e os profissionais com os quais te relaciona, acho isso muito, muito sério. A gente sabe o que é certo e o que é errado dentro da concepção de cada um, mas a lealdade com a qual tu estás tratando a profissão, os profissionais e as pessoas com quem tu te relacionas, acho isso um luxo.</p>
<p><strong>Portal3 – Agora você está trabalhando menos?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Eu trabalhava 24 horas por dia, na TV e no rádio. Um dia pedi demissão: “Quero ir embora”. Perguntaram: “Alguém te fez alguma coisa? Está doente?”, e eu disse: “Pelo contrário. Estou sã e quero ir embora agora. Não quero mais trabalhar todos os dias. Não quero mais ser uma <em>drag queen</em>, me moldar todos os dias, me pintar, me arrumar, me pentear, colocar uma roupa que combine. Estou exausta, cansada”. Não aceitaram. No fim, fiquei com a sexta-feira livre. Separo esse dia para escrever. É o dia de ficar em casa. Nos outros, faço oficina de literatura com a Cíntia Moscovich <em>(escritora e jornalista)</em>, aula de inglês, pilates três vezes por semana pela manhã. Na parte da manhã, estou sempre muito ocupada com as minhas coisas, coisas que nunca fiz antes. Então, estou num momento muito legal. A TV não me deu demissão, não quis que eu saísse.</p>
<p><strong>Portal3 – Não trabalhas mais na TV todos os dias?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Não. Faço o <em>Gurias de quinta</em>, às quintas-feiras, que é ao vivo, às 17h. Antes eu fazia o <em>Falando</em>, que era um programa diário. Mas mudei toda a minha vida. Me bateu um pânico, uma deprimida, mas não muito. Eu, sempre feliz da vida, numa dualidade bifurcada: saber se era bom ou não o que ia fazer. Aí me disseram: “A gente não quer que tu vá embora”. Eu chorei: “Ai, que amor!”. Foi muito legal, muito lindo! “Estou dando a chance para vocês, pois estão querendo demitir os velhos e não sabem como, eu estou pedindo demissão antes” <em>(brinca)</em>. Não queria ter esse impacto, então fui me preparando por três anos para pedir demissão. Não me deram. Que bom, fiquei feliz da vida. Então pensei: “Vou fazer um novo projeto, os meus cursos, as minhas coisas, e vou trabalhar só as quintas-feiras”. Na quarta, vou na TV, faço as reuniões. Na terça, às vezes não aguento e dou uma passadinha para ver como estão as gurias. Deixar uma redação louca, barulhenta, doida, que todo dia tem um aniversário, é difícil, muito difícil. Por isso fui me preparando antes.</p>
<p><strong>Portal3 – O que tu achas importante ter para trabalhar na TV?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Tem que ter talento, curiosidade e sorte, para não entrar em um programa que seja uma picaretagem, porque há muitos programas de TV que não são jornalísticos, são programas de venda de entrevistas. Isso não é jornalismo. Às vezes alguém liga para a TVCOM e pergunta: “Quanto custa para dar uma entrevista para a Tânia Carvalho?”. Ora, se for uma coisa interessante, é uma entrevista jornalística, não é? Então não paga nada. Se não é interessante, não vai para o ar. As pessoas são muito vaidosas. Nós todos somos muito vaidosos. As pessoas são uma barra de vaidade. Elas quase se prostituem, eu diria, para usar uma palavra bem forte, para aparecer. Vocês podem ver nos sites, que as pessoas fazem qualquer negócio para estar no ar, para sair na mídia. Vender entrevista e chamar as pessoas para pagar para participar de um programa de TV seria departamento comercial. Tu podes ser um bom comerciante de TV, mas isso não seria jornalismo. Algumas pessoas fazem uma coisa que nunca fiz na vida, detesto e acho de última categoria, que é ser apresentador e vendedor ao mesmo tempo. Vendem espaço, fazem entrevista e ainda dizem que aquilo é diferente de um comercial. Teria que parar de fazer a entrevista e dizer: “Agora estou vendendo um celular e tal”. Se não, fica tudo misturado, o comercial, as pessoas&#8230; Como diria um amigo que falava pouco inglês, mas estava aprendendo: “Please, no names”. <em>(risadas)</em>. É uma grande tendência hoje. Tendência o cacete <em>(risadas)</em>. Isso não é jornalismo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>“</strong><strong>Leio de tudo porque algumas vezes tenho que ler para saber. </strong></p>
<p><strong>Nem sempre são livros que tenho prazer em ler.”</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Portal3 – Como tu te abasteces de informações? Qual a tua rotina de leitura de sites, jornais&#8230;</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Estou sempre com a internet ligada, rolando por tudo que é site. Leio a <em>Folha de São Paulo</em>, <em>Estadão</em>, assino pela internet, e leio todos os dias. Estou em contato com meus colegas, recebo muitas informações. Estou dentro de todos os sites do mundo. Leio tudo que sou capaz de ler, tudo que o tempo me permite ler. Vejo pouca TV, apesar de ter TV no quarto. Às vezes deixo a TV ligada e fico lendo para esperar o <em>Saia justa </em>ou deixo a TV ligada esperando para ver uma entrevista no<em> Programa do Jô</em>. Então cuido do meu tempo também, mas acho que isso, só depois de velha, a gente consegue, com maturidade.</p>
<p><strong>Portal3 – Qual é a diferença entre trabalhar no rádio e na TV?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong>Gosto mais de fazer rádio porque o rádio não exige tanto da tua parte física. Exige muito mais daquilo que tu pões e que tu fazes. A TV é</p>
<div id="attachment_29335" class="wp-caption alignright" style="width: 363px"><a href="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03078.jpg"><img class="size-full wp-image-29335" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03078.jpg" alt="" width="353" height="265" /></a><p class="wp-caption-text">O presente do filho Diogo é um companheiro inseparável. Crédito foto: Marcelo Garcia</p></div>
<p>muito visual. Cada vez menos quero me expor em TV, pois não quero fazer plástica, não quero ficar virando uma caricatura de mim mesma. As pessoas exigem isso. Olha a coitada da Vera Fischer, está internada em uma clínica, porque não tem mais a performance visual que tinha quando jovem. Se tu não te adaptar contigo mesma, vai te adaptar com o quê? Se não te adaptar com teu corpo envelhecendo, com tua vida modificando, com a própria sexualidade, com teus hormônios&#8230; Tenho uma amiga que adoro quando ela diz: “Estou em paz com meus hormônios”. Isso quer dizer que a sexualidade dela na velhice está mais em paz, mais tranquila. Tudo isso faz parte da adaptação. Talvez os homens não se adaptem tanto quanto as mulheres.</p>
<p><strong>Portal3 – Saber envelhecer é importante?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Em 2011 faço 69 anos, ano que vem faço 70 e quero dar uma festa linda. Meus filhos já estão bolando uma festa para os 70, e eu quero festejar muito minha vida, minha idade, a sorte que tive de chegar até aqui com minha família, com todas as coisas que amo e fazendo aquilo que gosto. Vivo com muita dignidade com as minhas coisas, com as coisas do meu marido, que é médico. Ele também não tem essa aflição de ir para a mídia, nunca teve essa ânsia de se exibir, de se mostrar como certas pessoas têm. No jornalismo, quanto mais pacífica for a tua vida profissional, mais legal tu vais ser como jornalista, mesmo no jornalismo investigativo, policial. Tem que ter muito cuidado com as outras pessoas, com aquilo que tu tratas. O pessoal atropela, pisa por cima de todo mundo&#8230;</p>
<p><strong>Portal3 – Estamos em uma casa cheia de livros, muitos livros. O que tu mais gostas de ler?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Leio de tudo porque algumas vezes tenho que ler para saber. Nem sempre são livros que tenho prazer em ler, mas amo ler Clarice Lispector. Leio um conto da Clarice ou qualquer coisa por dia porque ela é a minha oficina de literatura.</p>
<p><strong>Portal3 – Tu te achas no meio de tantos livros?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Me acho. Onde eu ando, carrego os pockets da L&amp;PM. Estou lendo <em>Malaguetas, perus e bacanaço</em>, do João Antonio, que é um livro de homem escrito por homem, só sobre histórias de futebol. Quero saber como é essa vida masculina. Gosto muito de ler filosofia também, além de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Jorge Luis Borges. Tenho um espaço só para os livros de escritoras como Lya Luft, Clarice Lispector, Cláudia Laitano, Martha Medeiros, Célia Ribeiro. Minhas amigas todas ficam aqui.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>“Às vezes pego meus livros para ler de novo, que nem lição de casa, pois tu </strong></p>
<p><strong>só aprende a escrever lendo, não há outro jeito para aprender a escrever.”</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Portal3 – Tem muita coisa nas tuas estantes que tu não leste ainda?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Sim, tem muita coisa. Mas grande parte li: toda a coleção dos<em> Sete pecados capitais</em>, Pablo Neruda.</p>
<p><strong>Portal3 – Fazes uma lista de prioridades?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Eu colocava na minha bandeja que quebrou (<em>ao lado da cama</em>). Tem Philip Roth e Paul Auster, que eu adoro. Amo Paul Auster e Philip</p>
<div id="attachment_29337" class="wp-caption alignright" style="width: 335px"><a href="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03105.jpg"><img class="size-full wp-image-29337" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/DSC03105.jpg" alt="" width="325" height="432" /></a><p class="wp-caption-text">No quarto, Tânia guarda somente os livros preferidos. Crédito foto: Marcelo Garcia</p></div>
<p>Roth. Gabriel García Márquez, William Shakespeare, Guimarães Rosa e Machado de Assis são uns livrões enormes. De vez em quando, pego um e leio um pouco. Tem outro que é a minha bíblia, que é do Guimarães Rosa: <em>Grande sertão: veredas</em>. Fizemos um trabalho sobre os contos de Guimarães Rosa e tentamos escrever feito Guimarães, foi muito legal. É quase um tema de casa ler Guimarães Rosa. Tem uma coisa que não li ainda que é <em>(James)</em> Joyce, que é uma coisa muito difícil. Eu já comecei a ler, mas não tive saco. Quando ficar mais velha e tiver mais tempo, leio Joyce. Tem um que está na minha lista, que ainda não li, que é o <em>Guerra e paz</em>, porque ler Tolstói é fundamental para quem quer escrever legal. Tu tens que ler Tolstói. Tenho várias coisas dele. Às vezes pego para ler de novo, que nem lição de casa, pois tu só aprende a escrever lendo, não há outro jeito para aprender a escrever. E tu notas quando alguém escreve legal e que tem leitura naquele corpo. Outro dia, minha neta me falou: “Mas tu só me dá livro e camiseta, vovó”. Respondi que é porque quero que ela tenha uma boa biblioteca, enorme. Ela guardava os livros na gaveta, e eu disse: “Não deixa os livros na gaveta, livro a gente não põe em gaveta, livro a gente bota na prateleira para ler e olhar porque os livros respiram, eles precisam respirar”. Ela ficou muito impressionada. Antes de dormir ela vai lá e abre a gaveta para os livros respirarem<em> (risos)</em>. Vou dar uma prateleira para ela.</p>
<p><strong>Portal3 – Tens ciúmes dos teus livros?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Tenho, porque já perdi vários.</p>
<p><strong>Portal3 – E em cinema, tu és muito ligada?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Eu fui muito ligada em cinema. Tenho livros sobre cinema.</p>
<p><strong>Portal3 – E do que tu gostas de música? </strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Música boa. Escutei o último disco do Chico Buarque no computador, mas agora vou comprar. Gosto dos americanos. Gostava muito da Amy Winehouse também, mas esse não vou comprar para não dar dinheiro para os abutres <em>(risos)</em>.</p>
<p><strong>Portal3 – Quantos filhos tens?</strong></p>
<p><strong>Tânia – </strong>Tenho dois filhos: o Fabiano, do casamento com o Geraldo, que nasceu em São Paulo, mas veio comigo para Porto Alegre e fez a vida aqui. Fez universidade, tudo por aqui. Fez Publicidade e Propaganda. Não sei por que, né? <em>(brinca)</em> Hoje ele é publicitário. O Diogo é o mais moço, do casamento com o Felício, que foi encomendado na nossa casa em Gramado <em>(risos)</em>. Ainda mora comigo, mas vai sair de casa agora pra morar com outra mulher que não sua mamãe <em>(risos).</em></p>
<p><strong>Portal3 – Tiveste teus filhos em dois momentos bem marcantes da tua vida. O primeiro quando estava voltando para o Brasil, para São Paulo, e o segundo quando estavas começando a exercer o jornalismo novamente em Porto Alegre. Como foi?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> No auge da minha profissão. Tanto que todo mundo queria ir ao meu casamento com o Felício, e foram apenas 20 pessoas, porque eu não queria abrir, não queria. Passei por quase todas as emissoras de rádio e de TV de Porto Alegre. Só não trabalhei no SBT. Trabalhei na Guaíba, na Pampa, que agora é Record, na RBS&#8230; Enfim, trabalhei em todos os meios de comunicação, só nunca fiz jornal.</p>
<p><strong>Portal3 – Não tens vontade?</strong></p>
<p><strong>Tânia –</strong> Quero ficar fazendo rádio, que eu adoro, porque não precisa pintar os olhos e essa coisa toda <em>(risos)</em>. Já acordo escutando rádio, bem baixinho, para não acordar meu marido. Acho mais difícil fazer rádio, porque TV basta colocar um pôr-do-sol, uma imagem de qualquer coisa, e todo mundo fica: “Ohhhhh!”<em>.</em> No rádio tem que ter conteúdo, não pode dizer bobagem.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/entrevistasportal3.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/entrevistasportal3.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/entrevistasportal3.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/entrevistasportal3.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/entrevistasportal3.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/entrevistasportal3.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/entrevistasportal3.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/entrevistasportal3.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/entrevistasportal3.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/entrevistasportal3.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/entrevistasportal3.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/entrevistasportal3.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/entrevistasportal3.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/entrevistasportal3.wordpress.com/26/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=26&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Guerrinha aconselha: “Quem está começando tem que botar na cabeça que não sabe nada”</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Aug 2011 21:12:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>equipeportal3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Guilherme Endler Estagiário de Jornalismo Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, está há 28 anos na RBS, onde atualmente trabalha como colunista de esportes no Diário Gaúcho, além de participar dos programas Sala de redação, na Rádio Gaúcha, e Bate bola, na TVCOM. Também é comentarista nas jornadas esportivas da rádio. Colorado assumido, Guerrinha é conhecido [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=20&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Guilherme Endler</strong><em><br />
Estagiário de Jornalismo</em></p>
<p>Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, está há 28 anos na RBS, onde atualmente trabalha como colunista de esportes no Diário Gaúcho, além de participar dos programas <em>Sala de redação,</em> na Rádio Gaúcha, e <em>Bate bola</em>, na TVCOM. Também é comentarista nas jornadas esportivas da rádio.</p>
<p>Colorado assumido, Guerrinha é conhecido pelo sarcasmo e pelo esforço de  imparcialidade, sempre presentes nos seus comentários. É um dos poucos jornalistas esportivos gaúchos reconhecidos e respeitados pelas duas principais torcidas de futebol, mesmo sendo identificado com o lado vermelho do estado.</p>
<p>Em junho deste ano, o comentarista envolveu-se em uma polêmica com Paulo Roberto Falcão, seu ex-companheiro de Rádio Gaúcha. Na época treinador do Internacional, Falcão acusou publicamente Guerrinha de tentar derrubá-lo do cargo. Em entrevista ao <strong>Portal3</strong>, o jornalista comentou o caso e revisou sua trajetória profissional. Confira.</p>
<p>Guerrinha é o terceiro entrevistado da série Papos &amp; Pautas, em que estagiários do <strong>Portal3</strong> conversam com grandes nomes do jornalismo gaúcho. Os entrevistados anteriores foram o editor do Jornal <em>JÁ, </em><a href="http://portal3.com.br/wp/conversa-de-jornalista-elmar-bones">Elmar Bones</a>, e o editor especial de <em>Zero Hora</em>, <a href="http://portal3.com.br/wp/entrevista-historias-de-vida-moises-mendes">Moisés Mendes.</a></p>
<p><strong>Portal 3 – Como foi teu começo no Jornalismo?<br />
Adroaldo Guerra Filho –</strong> Comecei com 21 anos. Tinha um jornal da RBS chamado Jornal Hoje, que durou só oito meses. Foi criado para combater a Folha da Tarde, o que era um suicídio, a Folha da Tarde (<em>do grupo Caldas Júnior</em>) vendia para caramba, e o <em>Jornal Hoje</em> em oito meses não segurou o rojão, capotou. Daí eu saí da RBS e fui trabalhar na Folha da Manhã, que depois de um ano também fechou, porque não era rentável. Com isso, a maioria da equipe foi fazer o Correio do Povo. Na época, eu fazia turfe, não fazia futebol. Daí em 1983, vim para a Zero Hora e estou aqui desde então. Eu tinha 28 anos na época.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Quando foste para o futebol?<br />
Guerrinha –</strong> Em 1995. Não é que antes eu não podia fazer, mas a verdade é que ninguém queria fazer turfe, e eu gostava, gosto até hoje. Curto muito, tive cavalo e tudo. Mas o turfe, ao contrário do futebol, não se renovou, né? As pessoas não levam as crianças para o joquéi, hoje ninguém sabe quando tem corrida. Então o turfe foi perdendo a força. A empresa resolveu que o turfe não valia mais a pena e pensou: “O que nós vamos fazer com o Guerrinha?”. Perguntaram se eu queria fazer futebol, e eu disse: “Sem problema!”.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Começou como repórter?<br />
Guerrinha –</strong> Sim. Comecei como setorista, cobrindo o Inter e o Grêmio. Depois, quando criaram o Diário Gaúcho, o Cyro Silveira Martins Filho, que foi o idealizador da coisa, me chamou para ir junto, ser editor de esportes e colunista. Ali eu embalei. Sou colunista até hoje, mas não sou mais editor, porque é muito violento o negócio, sabe? O cara que vive o dia do jornal chega aqui às 13h30min para participar de uma reunião de pauta às 14h e só sai daqui com o jornal embaixo do braço. Hoje, o Diário roda às 22h30min, mas, na época, era à meia-noite, meia-noite e quinze. O sujeito fica morto, é uma vida de louco.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>O rádio veio quando?<br />
Guerrinha –</strong> Logo depois que fui para o Diário me chamaram para estrear um programa da <em>Gaúcha</em>. Eles estavam planejando o <em>Falcão na Gaúcha</em>, e ele (<em>Falcão</em>) disse que só aceitava fazer se eu fosse junto, porque queria um toque de humor no programa. Não levei muita fé. Falei que aceitava, mas que não ia dar certo. Nunca tive convicção que ia dar certo, porque eu nunca tinha feito rádio antes. Mas acabou dando certo mesmo!</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Em que ano foi isso?<br />
Guerrinha –</strong> Lá por 2000 ou 2001, não lembro direito. Lembro que a estreia foi num 1º de maio, mas o ano não guardei muito. No último ano em que eu fiquei com o Falcão, o Kenny Braga entrou de férias no <em>Sala de redação</em> e me chamaram para ficar no lugar dele por 30 dias. Quando acabou esse período, me falaram que eu não ia mais sair, e acabei sendo efetivado. Já estou há seis anos no programa.<strong></strong></p>
<div id="attachment_29149">
<div id="attachment_22" class="wp-caption alignleft" style="width: 333px"><a href="http://entrevistasportal3.files.wordpress.com/2011/08/guerrinha11.jpg"><img class="size-medium wp-image-22" title="Guerrinha1" src="http://entrevistasportal3.files.wordpress.com/2011/08/guerrinha11.jpg?w=323&#038;h=264" alt="" width="323" height="264" /></a><p class="wp-caption-text">Crédito foto: André Feltes/Diário Gaúcho</p></div>
<p><strong>Portal 3 – Tu pensavas em fazer TV, ou foi algo inesperado que nem o rádio?</strong><strong></strong></div>
<div><strong>Guerrinha –</strong> Também jamais havia pensado em fazer televisão. A RBS tinha um programa chamado <em>Lance final</em>, que ia ao ar todos os domingos, ao vivo, depois do <em>Teledomingo</em>. A ideia do programa era botar alguém identificado com o Inter e outro com o Grêmio para fazer debates. Era apresentado pelo Pedro Ernesto Dernadin e tinha participação do Cacalo e do Ibsen Pinheiro</div>
<p>Mas o Ibsen ia concorrer a um cargo eletivo, então o Nelson (<em>Sirotsky, presidente do Grupo RBS</em>) me chamou para fazer um piloto. Eu não achava boa ideia, porque ia ter que me identificar como Colorado e, como eu era editor de esportes, seria ruim para o jornal, né? Quando o Nelson me perguntou se era melhor eu ser colorado na RBS ou isento em outro lugar, eu respondi na hora: “Que horas eu tenho que estar lá no estúdio?” (<em>risos</em>)</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>No fim acabou dando certo também…<br />
Guerrinha –</strong> Sim. Fui lá fazer o piloto no outro dia, ainda com a esperança de que não ia dar certo. Achava que não ia ficar legal. No Rio Grande do Sul, a gente tem algum cuidado, porque aqui não tem meio termo: Ou tu é azul, ou tu é vermelho.</p>
<p>E é difícil de lidar com esse negócio. É claro que todos nós temos um time, mas é difícil de admitir, o público cobra muito aqui. Então fui lá fazer o piloto e fiz uma baita esculhambação. Fiz todas as coisas que eu costumo fazer normalmente, porque eu sou assim mesmo, sou gozador, sou sacana. Pensei que, com todas as bobagens, o programa não ia ser aprovado, mas no mesmo dia o homem me ligou dizendo que era aquele perfil mesmo que ele estava procurando. Então acabei ficando. Logo depois surgiu o <em>Bate bola</em>, onde estou até hoje. Mas, dos três veículos, ainda prefiro o jornal impresso.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Por quê?<br />
Guerrinha –</strong> Porque nele, se tu falar bobagem, arruma-se. No rádio ou na TV, se tu disser m****, já era. Aí já prepara o advogado porque vai dar encrenca (<em>risos</em>). Até hoje, não me incomodei nem em rádio nem na televisão. Mas o jornal é melhor.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Como tu disseste, é muito difícil para um jornalista esportivo reconhecer abertamente que é torcedor de determinado time. Como tu conseguiu te identificar com o Inter e, mesmo assim, ser respeitado pela torcida gremista?<br />
Guerrinha –</strong> A receita é muito simples: tu tens que saber, em primeiro lugar, separar a tua condição de profissional da de torcedor. Isso é fundamental. Em segundo lugar, tens que fazer o que eu acho ainda mais importante: quando tu vais agir como profissional, não podes enxergar o futebol com o coração, só com os olhos. É que nem quando tu criticas o teu filho. Por mais que ame o meu filho, tenho que admitir quando ele erra. Uso essa mesma regra com o futebol. Outra coisa que pesa muito: eu não sou antigremista. Não tenho alegria quando o Grêmio perde, tenho alegria quando o Inter vence. Além disso, se tu falas a verdade, as pessoas entendem que tu estás falando como profissional e não como torcedor. Acho que é muito simples. Mas respeito e entendo quando os profissionais não querem abrir o time do coração, justamente pela rivalidade, que ainda existe. Acho que é muito difícil conseguir o respeito da torcida adversária como eu consegui. Inclusive recebo muitos e-mails de gremistas pedindo: “Pelo amor de Deus, nos ajuda!”.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Como começou a tua paixão pelo turfe?<br />
Guerrinha –</strong> Meu pai gostava muito de turfe, foi um grande rádio-ator, um homem de sucesso na profissão e ele nunca foi muito fanático por futebol. Mas gostava muito de corrida de cavalos. Ele me levou com nove anos para ver os cavalos correrem, e eu fiquei fascinado com aquilo, com as cores, com a velocidade dos cavalos, e ali peguei gosto pela coisa. Depois, com 14, 15 anos eu já ia ao jóquei sozinho e apareceu uma chance de trabalhar no turfe, na rádio 1.120, eu comecei a narrar corrida de cavalos, e acho que fazia bem. Tanto acho que fazia bem que, depois que a rádio abandonou o turfe, fui locutor oficial do Jockey Club por mais 12 anos. Narrava sábado, domingo e segunda, sempre. Adoro cavalos.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Que herança trouxeste dessa época como narrador de turfe?<br />
Guerrinha –</strong> O turfe é uma coisa diferente, porque tu tens que descobrir o que o cavalo sente. Ele não fala se ele está com dor, se está disposto, se ele quer correr, tu tens que descobrir isso. Então o turfe me ajudou muito nas coisas que uso hoje, me ajudou a separar a razão da emoção.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Hoje o que te dá mais emoção: uma partida de futebol ou uma corrida de cavalo?<br />
Guerrinha –</strong> (pausa) Tem partidas de futebol que me dão muita emoção, mas eu gosto do futebol bem jogado. Tive um azar na minha vida: ver os bons jogarem. Esse é o grande problema. Dizem que sou exigente com os volantes do Inter, mas tenho bronca com eles porque vi o Falcão jogar. Se eu não tivesse visto ele jogar, eu ia achar que o Claiton e o Edinho jogam uma barbaridade. Não jogam nada, não sabem nada. Eu vi os bons jogarem, eu vi Pelé, vi Garrincha, esses caras todos. E não tem nada como o espetáculo que é uma partida de futebol bem jogada. Mas tem que ser bem jogada. Muitas vezes, na maioria delas, eu fico com pena da bola, acho que ela sofre. Mas a corrida de cavalo também me dá emoção, dá uma adrenalina diferente, porque ali envolve aposta, envolve dinheiro. É diferente a adrenalina.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Muitos estudantes de Jornalismo ingressam no curso sonhando em trabalhar com esportes. Que dica tu daria para alguém que quer começar nessa área, onde existe muita concorrência?<br />
Guerrinha –</strong> Insistir. Na vida tudo é insistência. Além disso, o cara que vai começar tem que botar na cabeça que ele não sabe nada. Esse é o primeiro mandamento. A humildade é a receita da coisa. O conhecimento vai avançar conforme tu começas a trabalhar, mas não dá para começar achando que já sabe tudo, porque tu não vai chegar a lugar nenhum. Hoje, com 56 anos, posso te dizer, com certeza, que não sei tudo. Eu aprendo todo dia. Muitos desses meninos que estão começando ouvem um programa esportivo e botam na cabeça: “Pô, esse cara do programa não sabe nada, eu é que sei”. Quem pensa assim não vai chegar a lugar nenhum, tem que ter humildade. E tem que ter insistência. Se tu queres ser isso, luta para ser isso. Depois, se tu entrar e não gostar, bom, vai fazer Economia, vai fazer Palavras-cruzadas, Horóscopo, tudo bem. Mas luta pra ser o que tu queres, porque tem espaço, sim. Os bons ficam… Os ruins, não.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Qual foi o maior aprendizado que o jornalismo te trouxe?<br />
Guerrinha –</strong> Ouvir. O jornalista é igual médico, né? Não tem feriado, não tem domingo, não tem p**** nenhuma. Às vezes tu estás numa festa, por exemplo, e ouve alguma coisa interessante. Tu és jornalista naquele momento. A partir daquela informação, a pessoa vai atrás, vai checar. Às vezes, o grande furo está aí. Não está no ambiente do futebol, mas sim fora dele. Então tu tens que estar sempre com o ouvido limpinho e com os olhos arregalados, porque as coisas acontecem. O bom do jornalismo é quando as coisas te surpreendem. Sei lá, supondo que pegou fogo na praça. Todo mundo sabe que pegou fogo na praça, vai todo mundo para lá. Então, tu és um a mais a dar essa noticia, certo? Tu tens que estar sempre antenado para tentar saber coisas que os outros não sabem. Se tu souberes coisas que os outros não sabem e utilizar bem essa informação, tu vais ganhar notoriedade. E ganhando notoriedade, tu vais ganhar espaço. E ganhando espaço, tu vais crescer.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Como é o ambiente do dia a dia no estádio e a convivência com os jogadores e dirigentes?<br />
Guerrinha –</strong> É uma convivência boa. Quando eu comecei no futebol, eu aprendi que toda entrevista tem que ser precedida por alguma coisa que tire a atenção do entrevistado. Tu não podes chegar para o cara e dizer: “Pô, cara, falaram que tu és uma m****”. Ele vai te dar uma resposta que vai ser como um tiro no teu peito. Tu tens que conversar. “Bah, e aí, como anda a tua família e coisa e tal?”, “Pô, o que tu achaste de domingo? Aquele time dos caras nem era tudo isso, né? A gente podia ter ganho”, sabe? Daí pronto, liquidou. Daqui a pouco o cara te diz coisas que tu jamais imaginaste.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Tu já conseguiste alguma declaração importante desse jeito?<br />
Guerrinha –</strong>Sim. Naquele ano em que o Gauchão foi decidido em dois Gre-Nais, e o Ronaldinho deu um balãozinho no Dunga, sabe? Arranquei</p>
<div id="attachment_23" class="wp-caption alignright" style="width: 345px"><a href="http://entrevistasportal3.files.wordpress.com/2011/08/guerrinha2.jpg"><img class="size-medium wp-image-23" title="Guerrinha2" src="http://entrevistasportal3.files.wordpress.com/2011/08/guerrinha2.jpg?w=335&#038;h=224" alt="" width="335" height="224" /></a><p class="wp-caption-text">Crédito foto: André Feltes/Diário Gaúcho</p></div>
<p>uma declaração do Dunga nesse estilo. Depois do treino, a gente estava conversando, e ele falou assim para mim: “Vou pegar o Ronaldinho no domingo, ele é maldoso e sempre entra por cima da bola”. Eu botei no jornal. No dia seguinte, deu uma baita repercussão.  Foi todo mundo atrás do Dunga, querendo saber se era verdade. E eu tinha certeza que ele ia desmentir. Mas não, ele assumiu e ainda repetiu que ia pegar o Ronaldinho. Foi aí que eu vi o verdadeiro caráter do Dunga, sabe? Sei que muitos reclamam que ele é duro com a imprensa, mas não tenho nenhuma queixa dele. Eu sempre trabalhei muito bem com o Dunga.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Como tu lidaste com as acusações que o Falcão fez publicamente contra ti, dizendo que tu querias derrubar ele do cargo?<br />
Guerrinha –</strong> Na verdade, isso aconteceu porque o Diogo Olivier me ligou para perguntar qual era a chance do Mário Sérgio vir treinar o Inter, porque todo mundo sabe que o Mário é meu irmão, né? E eu disse que não tinha nenhuma chance, porque ele estava em recuperação de uma cirurgia de joelho. Não tinha nenhuma chance mesmo. E o Diogo me disse: “Ah, eu vou botar na minha coluna que ele está sendo cogitado pelo Inter”. Falei que a coluna era dele, e não minha. E ele botou. Então o Nando Gross, que é muito amigo do Falcão, disse para ele (Falcão) que essa história era uma campanha minha para tirar ele do cargo.</p>
<p>(Pausa)… E o Falcão acreditou. Em vez de pegar isso aqui (<em>mostra o celular</em>), que foi feito para ligar… Pô, liga para mim e pergunta que bobagem é aquela. Eu ia falar que não tinha nada a ver, para ele tocar ficha no trabalho dele. Mas não. Ele estava acuado também, né? E foi lá e falou aquilo.</p>
<p><strong>Portal 3 –</strong> <strong>Tu chegaste a falar com ele sobre isso?<br />
Guerrinha –</strong> Nunca, nunca. Ele que tinha que falar comigo, ele que fez a barbeiragem, não fui eu. Eu não fiz campanha para o Mário Sérgio nem na primeira vez que ele veio. Nunca fiz campanha para treinador no Inter. A única vez em que eu falei sobre treinador com dirigente foi a favor do próprio Falcão. Liguei para o Siegmann, que é meu amigo, e disse para ele resolver logo aquela história, porque ia ser legal, o cara (<em>Falcão</em>) é ídolo e tudo. Mas hoje nem quero mais assunto com o Falcão. E ele mostrou o caráter dele. Não para mim, mas na entrevista de despedida, e principalmente no (programa do Sportv) <em>Bem, amigos</em>, em que ele chutou o balde contra a instituição. Não podia ter feito isso, isso é burrice. Todo clube que pensar em contratar o Falcão e quiser informações sobre ele vai ligar primeiramente para o Sport Club Internacional. O que os caras vão dizer?</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/entrevistasportal3.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/entrevistasportal3.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/entrevistasportal3.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/entrevistasportal3.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/entrevistasportal3.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/entrevistasportal3.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/entrevistasportal3.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/entrevistasportal3.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/entrevistasportal3.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/entrevistasportal3.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/entrevistasportal3.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/entrevistasportal3.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/entrevistasportal3.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/entrevistasportal3.wordpress.com/20/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=20&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Papos &amp; Pautas: Moisés Mendes</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 20:27:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>equipeportal3</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lílian Stein e Ana Paula Figueiredo Estagiárias de Jornalismo Quando fala da busca por uma pauta ousada, um personagem desconhecido ou um bom cenário, Moisés Mendes é enfático: “É preciso deixar-se surpreender”. Foi se deixando surpreender que o jornalista contou centenas de histórias. Fez da apuração um momento decisivo em sua produção e, com isso, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=9&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Lílian Stein e Ana Paula Figueiredo</strong><br />
<em>Estagiárias de Jornalismo</em></p>
<p>Quando fala da busca por uma pauta ousada, um personagem desconhecido ou um bom cenário, Moisés Mendes é enfático: “É preciso deixar-se surpreender”. Foi se deixando surpreender que o jornalista contou centenas de histórias. Fez da apuração um momento decisivo em sua produção e, com isso, tornou possível ao leitor enxergar a periferia da vida. Ele mostra o que está por trás de famosos, tragédias e banalidades. Moisés Mendes é um contador de histórias – e o faz com a elegância e destreza de poucos.</p>
<p>Moisés nasceu em Rosário do Sul, mas foi criado no Alegrete. Lá deu seus primeiros passos no jornalismo. Depois de ser descoberto fazendo um jornalzinho caseiro, aos 17 anos passou a trabalhar na <em>Gazeta do Alegrete</em>. Exatamente 40 anos depois, o editor especial de <em>Zero Hora </em>relembra a trajetória percorrida durante a época da ditadura, comenta os rumos do jornalismo da atualidade e reflete sobre as mudanças de ideais de quem trabalha com informação.</p>
<p>Moisés Mendes é o segundo entrevistado da série em que estagiários do <strong>Portal3</strong> conversam com nomes de referência da imprensa no Rio Grande do Sul.</p>
<p><strong>Portal 3 – Como foi o teu início no jornalismo?</strong></p>
<p><strong>Moisés Mendes – </strong>Comecei na <em>Gazeta do Alegrete</em>, em 1970. Antes, fazia um jornal de papel almaço, batido à maquina, em casa. Não lembro o nome, mas era época de Copa do Mundo, e eu fazia um jornal completamente alienado, falando sobre futebol e a cidade.</p>
<p><strong>Portal 3 – Tu tens formação acadêmica?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Não tenho. Na minha época eram raras as universidades.<strong> </strong>Comecei a me interessar por jornalismo por causa da minha avó, que assinava o jornal da cidade. A minha família sempre tinha muitos livros em casa. Fui criado só por mulheres, pela minha mãe e minha avó.</p>
<p>Uma tia minha assinava as revistas <em>O cruzeiro </em>e <em>Manchete, </em>e todas as edições iam para a nossa casa. Eram as revistas da época, e eu lia tudo. Lia, por exemplo, Paulo Mendes Campos, que era cronista, e eu achava que era meu parente e, por isso, devia ler. Lia Carlos Lacerda, aquele grande calhorda que ajudou a acabar com Getúlio Vargas. Ele escrevia muito bem. Eu era muito estimulado a ler. Me criei nesse tipo de ambiente.</p>
<div id="attachment_25269" class="wp-caption alignright" style="width: 279px"><strong><strong><a href="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/03/DSC01016.jpg"><img class="size-full wp-image-25269" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/03/DSC01016.jpg" alt="" width="269" height="354" /></a></strong></strong><p class="wp-caption-text">Moisés: Sou da época romântica. Jornalismo era uma coisa para mudar o mundo.” Foto: Ana Paula Figueiredo</p></div>
<p><strong>Portal 3 – O que tu produzias nesse jornalzinho caseiro? De onde tirava as informações?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Falava sobre fatos da cidade, inventava coisas, escrevia croniquetas e fazia análise da Copa do Mundo, que estava acontecendo na época. Fazia comentários como se eu fosse o Ostermann daquela época <em>(risos)</em>. Era algo completamente alienado. O mundo correndo, a ditadura a milhão e eu lá, viajando. Só depois me dei conta das coisas. Foi então que o dono da <em>Gazeta</em> ficou sabendo desse jornal por meio do meu irmão, que trabalhava com ele. Fui trabalhar lá também. Achava que ia ser repórter, mas comecei como porteiro.</p>
<p><strong>Portal 3 – Quantos anos tu tinhas?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Tinha 17. Trabalhei na portaria e depois na clicheria. Antigamente, as fotos eram feitas com uma espécie de carimbo de zinco, onde se gravava uma imagem e usava como uma matriz de reprodução. O jornal era impresso assim.</p>
<p><strong>Portal 3 – Quando tu passaste para a função de repórter?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Não demorou muito. Com dezenove anos eu era editor do jornal. Fiquei na <em>Gazeta </em>até 1973, quando fui trabalhar n’<em>A</em> <em>Platéia, </em>em Santana do Livramento<em>. </em>Mas foi ainda no meu primeiro emprego, na <em>Gazeta, </em>que aconteceu uma das coisas mais interessantes da minha vida de repórter. Em frente ao jornal, uma mulher com uma criança no colo foi morta pelo ex-marido, com um tiro. Quando cheguei, ela estava morrendo, e o cara com a arma na mão e a criança no colo. Contei toda aquela história, fiz uma página inteira falando sobre o crime. Essa foi a primeira grande reportagem que fiz.</p>
<p><strong>Portal 3 – Como foi a experiência de trabalhar n’<em>A</em> <em>Platéia</em>?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Trabalhei lá até maio de 1975. Escrevia uma coluna no estilo d’<em>O</em> <em>Pasquim</em>, com bastante sarcasmo. Fui chamado na Polícia Federal porque escrevi a palavra “porra”. Nesse período, eu peguei censura. Era repórter e recebia telefonemas da Polícia Federal na redação. Diziam que não podiam publicar determinadas matérias.</p>
<p>Em 1974, houve uma epidemia de meningite, e a Polícia deu ordem de não sair nada sobre o assunto. Naquele dia, o jornal desafiou a censura e publicou um caderno especial sobre meningite. Foi um episódio interessante para o jornal, que viveu a sua ditadura. Naquele contexto, se fazia um jornalismo que viveu muito tempo de combate, de enfrentamento. O jornalismo era mais romântico nessa época.</p>
<p><strong>“Sou da época romântica. Jornalismo </strong><br />
<strong>era uma coisa para mudar o mundo.”</strong></p>
<p><strong>Portal 3 – Como era a relação dos repórteres com a censura?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Era bastante complicada. Um colega meu editava um jornal do mesmo grupo d’<em>A Platéia</em>, mas em Uruguaiana, e, como muitos outros, também desafiou a censura publicando na capa que a Polícia Federal determinava que não se divulgasse dados autênticos do MDB, a linha mais esquerda do atual PMDB. Foi preso.</p>
<p>Meu chefe também foi preso porque distribuiu panfletos na cidade contra um delegado da Polícia Federal que estava indo embora, havia sido transferido. Ele escreveu um versinho: “Fulano, fulano, o povo todo arde. Por que tu só vais hoje? Por que tu vais tão tarde?”. Ficou dois dias preso.</p>
<p>Sou da época romântica. Antigamente, jornalismo era uma coisa para mudar o mundo, para derrubar a ditadura. De alguma forma me engajei nessa coisa, gosto dessa trajetória da minha geração, de dizer “nós queremos democracia”. Por exemplo, fui filiado ao MDB. Era jornalista da Caldas Júnior e filiado ao MDB, uma coisa completamente maluca. Achava que, além de ser jornalista, tinha que ser filiado a algum partido.</p>
<p><strong>Portal 3 – De que maneira tu achas que essas limitações impostas contribuíram na tua formação?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Comecei a trabalhar no período em que a ditadura estava realmente a milhão. Mesmo assim, foi nessa época que ganhei meu primeiro prêmio de jornalismo, para jornais do interior. Ganhei com a história de uma vila pobre, a Pampeiro, que ficava em meio a uma imensa fazenda bastante rica. Depois fui trabalhar em Bento Gonçalves, fui editor d’<em>O Semanário</em>, um jornal semanal. Fazia o jornal com mais duas pessoas. Cheguei a ser repórter, depois virei editor. Foi um período interessante porque eu escrevia, editava e vendia o jornal na banca aos sábados à tarde.</p>
<p>Foi então que criei uma série sobre casos de polícia de Bento Gonçalves que não se resolviam. O nome era <em>Arquivo</em> e abordava crimes insolúveis relacionados a famílias da cidade. Tive que parar com aquela série porque a cidade não gostava. Então, fui trabalhar em Ijuí, no <em>Correio serrano</em>, um jornal tradicional de lá. Trabalhei durante dois anos, e, em 1977, virei correspondente da Caldas Júnior. Esse período foi muito intenso, aprendi demais durante os cinco anos que fiquei lá. Havia muita cobrança, a central do interior da Caldas Júnior era a parte mais poderosa do jornal porque o jornal era forte no interior.</p>
<p><strong>Portal 3 – Como foi a época de greve na Caldas Júnior?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Essa greve foi o fim da Caldas Júnior, porque eles não conseguiram pagar salários. Lembro que meu chefe me ligou para saber o que eu ia fazer. Eu disse: “Estou em greve, está todo mundo em greve”. Quer dizer, alguns resolveram não fazer greve, mas muitos passaram fome, o que não foi o meu caso, pois tinha outro emprego.</p>
<p>Trabalhava na <em>Cotrijuí</em> nessa época. Quando a Caldas Júnior quebrou, meu salário só reduziu pela metade. Depois, quando a Caldas reabriu, comprada pelo Renato Bastos Ribeiro, fui contratado novamente, mas não consegui voltar. Não me deixaram voltar porque eu era da lista negra, havia cobrado meus salários atrasados na Justiça. Não sei bem o que aconteceu. Fui convidado, contratado, só não assinei a carteira. Quando fui assinar, disseram que não me queriam, e não voltei.</p>
<p><strong>Portal 3 – Nessa mesma época, você trabalhou em rádio. Como foi a experiência?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Foi um grande aprendizado. Quem trabalha com rádio sempre sabe o que está acontecendo, porque tudo é muito rápido. Trabalhei na rádio <em>Progresso</em>, de Ijuí, muito forte em jornalismo. Alguns ainda dizem que é a rádio mais forte de jornalismo no interior. Foi lá que aprendi a não discriminar nenhuma mídia, pois eu achava que tinha de escrever e não trabalhar em rádio para fazer apenas notinhas curtas. Mas foi com as tradicionais notinhas curtas de rádio que melhorei muito em agilidade e precisão.</p>
<p><strong>“Não se deve escolher área para</strong><br />
<strong>trabalhar. O jornalista é um profissional </strong><br />
<strong>que precisar falar sobre tudo.” </strong></p>
<p><strong>Portal 3 – Quando tu foste foi para a Zero Hora?</strong></p>
<p><strong>Moisés –</strong>Em 1988, fui chamado para ser subeditor de economia. Trabalhei com isso até 2000 e então virei editor especial. Hoje, faço de tudo. Lavo chão, faço faxina, atendo emergência, qualquer negócio. A partir daí sou editor especial (risos).</p>
<p>Uma coisa que aprendi na <em>Zero Hora </em>é que não se deve escolher área para trabalhar. O jornalista pode querer ser setorista do Grêmio, mas depois vai ser setorista do Inter, de natação, de buraco de rua e vai acabar cobrindo política. O jornalista é um profissional que precisar falar sobre tudo.</p>
<p><strong>Portal 3 – Existe alguma área pela qual não tenhas passado em <em>ZH</em>?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Só não cobri guerra. Mas não é uma coisa que me interessa. Tirando isso, fiz de tudo no jornal. Fui setorista de caderno, atuei em polícia, geral, futebol, Copa do Mundo, agricultura, política. Me meti em tudo que é área. Também faço o editorial do jornal de vez em quando. Gosto de atuar em tudo que é frente, acho que o jornalista deve ser completo, não pode deixar de ser repórter.</p>
<p><strong>Portal 3 – Tendo começado em economia e passado por tantas outras, tens alguma editoria preferida?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Não, não tenho mesmo. Gosto de fazer tudo. Fico inquieto se não consigo pular de uma editoria para a outra. Quero desafios. Geralmente eu mesmo invento minhas pautas.<strong> </strong></p>
<p><strong>Portal 3 – Tu editas também, não é?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Só não edito quando é algo muito complicado, chato. Mas editar me dá prazer, gosto de dar acabamento. Às vezes, estou pensando em uma matéria e já começo a planejar a edição.</p>
<p><strong>“Gosto de fazer matérias da periferia das coisas,</strong><br />
<strong>de enxergar o que o outro não enxerga.”</strong></p>
<p><strong>Portal 3 – Como é o surgimento da pauta</strong><strong>?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Agora, por exemplo, tenho aberta uma lista que chamo de “Pautas 2011”, e ali vou colocando todas as ideias. Algumas olho depois e vejo que não têm validade, as outras vou tentando fazer durante o ano. Muitas coisas são pautas que não fiz em outros anos, mas 90% daquilo eu não consigo fazer, o que me deixa um pouco frustrado.</p>
<p>Traçar uma lista de ideias é uma é uma coisa boa de fazer. É claro que, ao longo do ano, surgem coisas que não estavam previstas, coisas da redação mesmo. Mas é bom tentar manter um planejamento para não deixar morrer.</p>
<p>Teve matérias que demorei três anos para fazer, a pauta ficava ali e eu não levava adiante. Uma dessas fiz no ano retrasado. Estranho ter saído no caderno de Cultura, mas era o espaço que tinha. Eu contava cinco histórias, cinco retratos de mães coragem, mulheres sem marido que conseguiram manter e criar os filhos na periferia da cidade sem deixá-los cair na bandidagem. Essa é uma pauta que ficou anos apenas na idéia. Estava de férias em Santa Catarina e abri um livro do Luiz Eduardo Soares, que foi assessor de segurança do Tarso Genro e entende do tráfico no Rio. Achei fantástico, pois ele dizia que o único jeito de corrigir o problema de favela e tráfico no Rio é fortalecer as mães, que são, segundo ele, chefes de família. Me inspirei e entrevistei ele para essa matéria.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que tu fizeste em 2010?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Acho que nada importante. Esse foi um ano quase morto, não fiz nada diferente. Fiquei uma época na Copa, me preocupei com o Dunga&#8230; Depois da eleição, fiz dois perfis da Dilma Russeff. Fora isso, nada de importante. Esse foi um ano ruim para toda a redação porque, se tu fores fazer um balanço do jornal, ele não tem grandes reportagens. Tem aquela dos Infiltrados (<em>série sobre os agentes paramilitares que se infiltravam em grupos de esquerda durante a ditadura</em>), teve uma sobre corrupção nas cadeias. Mas não houve muitas grandes reportagens porque, em ano de eleição e Copa, toda a energia vai para esses temas.</p>
<p><strong>Portal 3 – Qual foi a maior reportagem da tua vida?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Já pensei nisso, mas não cheguei a uma conclusão. Tem algumas tragédias que cobri, e acho que me saí bem.</p>
<p>Por exemplo: gosto de fazer matérias da periferia das coisas. O cara diz que o Hitler, o Mussolini e o Lula são grandes personagens, mas eu me interesso pelos caras que estão por trás deles. Me interesso por aqueles que estão na beira, no entorno. Gosto de enxergar o que o outro não enxerga.<strong> </strong></p>
<p>Não gosto dessa coisa da celebridade. Gosto de escrever sobre o que ninguém está escrevendo. Eu cobri três tornados aqui no estado. O primeiro atingiu um sítio que eu tinha em Viamão. Fui ver pessoalmente o que havia acontecido na casa porque jornais e rádios não davam a dimensão real do problema. Cheguei lá e vi que o que havia passado era um tornado. A minha casa não caiu, mas as dos meus vizinhos, sim. Cheguei lá e estava tudo devastado. Me senti bem por conseguir contar aquele drama de um jeito que até então não estavam contando. Depois desse dia, também cobri um tornado em São Francisco de Paula e outro em Antônio Prado, em que morreu uma criança num colégio. Foi uma coisa horrorosa, mas a tragédia está ali e tu tens que cobrir.</p>
<p>Gosto de contar o drama humano. Um tornado não significa apenas a casa ou o patrimônio destruído, mas a memória destruída. Ele leva tudo, as tuas memórias, as tuas fotos, as tuas bugigangas. É isso que eu acho interessante.</p>
<p>Mas o que gosto mesmo de fazer é a pauta não pensada. Para 2011, tenho como desafio tentar enxergar o que há por trás da Dilma Rousseff, por exemplo. Como funciona o governo, que poder é esse que está se instalando, como vai se comportar esse governo. Mas não vou focar na Dilma. Quero falar com as pessoas que conhecem ela e construir perfis a partir dos depoimentos dessas pessoas.</p>
<p><strong>Portal 3 – Tu também escreveste um perfil da Mafalda Veríssimo sem falar com ela&#8230;</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Exatamente. Mas isso também não é um grande mérito. Gay Talese fez um perfil do Frank Sinatra sem falar com ele. Claro que ele é um gênio, mas em biografias não autorizadas, por exemplo, as pessoas não falam com o biografado, apenas com fontes secundárias.</p>
<p><strong>Portal 3 – Mas na época a Mafalda não gostou da ideia, né?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Ela não queria, mas, depois que saiu, gostou. Inclusive me telefonou para agradecer. Ela achava que estava morrendo e que eu estava fazendo o obituário dela. Eu fiz, ela adoeceu e eu guardei. Depois, publiquei quando ela completou 90 anos. Foi o Veríssimo (<em>Luís Fernando</em>) que me alertou. Um dia eu estava conversando com ele, e ele me perguntou: “Te lembras daquela matéria que estavas fazendo com a mãe e que não saiu? Pois ela está fazendo 90 anos”. Eu tinha tudo apurado, só atualizei algumas coisas e fiz o perfil da Mafalda. Gosto daquele perfil.</p>
<p><strong>Portal 3 – Quantas pessoas foram entrevistadas?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Ouvi muita gente. Gosto de ouvir muitas pessoas. Isso é uma coisa que os jornalistas percebem logo que começam a trabalhar: às vezes tu vais ouvir uma pessoa e sai do local sem nenhuma anotação, ou anotou e depois pensa que aquilo não serve para nada. Serve, sim. Com a Mafalda foi assim. Construí um perfil dela a partir do que os outros disseram e montei. Li as memórias do Erico, falei com as pessoas que conviveram com ela. Não tem mistério algum, só é preciso dedicação.</p>
<p><strong>“O repórter tem que ser inquieto. A burocracia </strong><br />
<strong>da redação não deve deixá-lo se acomodar.”</strong></p>
<p><strong>Portal 3 – É verdade que tu gostas de fazer entrevistas por telefone?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>O que é o telefone numa redação? É uma tentação, porque, com ele, tu não precisas pegar o carro e ir falar com a pessoa. Não desprezo o telefone. Não só para pegar informação declaratória e mentirosa de político, mas ele é bom para dar um susto na fonte, porque tu pegas ela ali, na hora, ela não está te vendo. Acho bom o telefone.</p>
<p>Fiz muita coisa do perfil da Mafalda por telefone. Entrevistei o José Lewgoy (<em>ator</em>), que me deu informações fantásticas sobre ela. Talvez, se eu sentasse com ele, ele se dispersasse e não me desse uma boa entrevista. Ao vivo, existe a possibilidade de dispersão, e, por telefone, tu focas naquilo e a fonte te dá a informação que tu queres. Por isso gosto de telefone.</p>
<div id="attachment_25271" class="wp-caption alignleft" style="width: 308px"><img class="size-large wp-image-25271" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2011/03/DSC010231-1024x768.jpg" alt="" width="298" height="223" /><p class="wp-caption-text">&quot;O repórter tem que ser inquieto, tem que ser um &#039;mala&#039; para o editor de jornal.&quot; Foto: Ana Paula Figueiredo</p></div>
<p><strong> </strong><strong>Portal 3 – Mas perde um pouco dos gestos e observação.</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Perde um pouco da observação porque às vezes uma pauta é 99% de observação, é perceber o que está acontecendo, compreender a paisagem. No caso do José Lewgoy, não era necessário descrever o momento. O que me interessava é que ele falasse da Mafalda. Ele começou a falar e não parou mais. Mesmo com um político, às vezes tu o pega no telefone, e ele não tem como te enrolar, aí tu podes ser mais incisivo na pergunta do que na frente dele.</p>
<p><strong>Portal 3 – O perfil da Gisele Bündchen também surgiu de uma entrevista por telefone, certo?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Sim. Fiz um perfil da Gisele quando ninguém no Brasil sabia quem era ela, nem eu. Quem teve a ideia foi a Sandra Simon, editora do caderno <em>Donna</em> na época. O <em>Donna</em> estava mudando, e ela queria uma pauta diferente para marcar a mudança. Ela me disse: “Faz uma matéria com a Gisele Bündchen”. Eu respondi: “Não sei quem é Gisele Bündchen”. Ninguém sabia. Ela já era famosa lá, mas não aqui. Fui atrás, falei com o pai dela.</p>
<p><strong>Portal 3 – Antes não houve um problema porque já haviam escrito em <em>ZH</em> coisas de que ela não tinha gostado?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>O correspondente Chico Reis (<em>então em Nova Iorque</em>) tinha escrito que a Gisele namorava todo mundo, e ficou chato para a família. A família disse: “O cara colocou no jornal que a Gisele está ‘dando’ para todo mundo”. Tive que negociar com o pai dela, fui a Horizontina. Quando cheguei lá, fiquei sabendo que ela estava em Porto Alegre. Consegui falar com ela porque os pais ajudaram. Falamos ao telefone durante duas horas. Aí tem outra coisa: falar ao telefone com uma Gisele Bündchen, que fala pelos cotovelos, é tudo de bom. Depois, falei com ela na rua, quando ela foi comprar um aparelho de ginástica para a irmã. O Kadão (<em>Ricardo Chaves, editor de Fotografia de ZH</em>) fez fotos dela, mas no telefone ela já havia me dito tudo que o eu queria. Duas horas, não aguentava mais (risos). Gosto desse perfil, também.</p>
<p><strong>Portal 3 – Tiveste que insistir muito para conseguir conversar com ela&#8230;</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>O repórter tem que ser inquieto, tem que ser um “mala” para o editor de jornal. Já fui editor e sei o que é isso. O repórter tem que ser um estorvo dentro de uma redação. O repórter acomodado, que só pega pauta do editor do jornal está apenas cumprindo ordens. Mas o repórter tem que ser inquieto. A burocracia da redação não deve deixar um repórter se acomodar.</p>
<p>Quem é inquieto acaba tendo sorte. Um ano depois do 11 de Setembro, as pessoas largaram livros com dedicatórias por Porto Alegre, para lembrar a data. Largaram livros em bancos, esquinas, e outras pessoas pegavam. Pensei em fazer algo sobre isso, mas achava que não ia encontrar um desses livros. Imaginei que era uma boa idéia contar a história de alguém que acha livros na rua, como um lixeiro, um catador.</p>
<p>Fiquei sabendo que havia dois caras numa esquina perto de onde eu moro, eles estavam sempre por ali catando lixo. Quando cheguei, puxaram o livro <em>Fábulas de Esopo. </em>Dois caras, um barbudo e o outro careca, começaram a falar de literatura. Era uma coisa tão maluca que não acreditei. Eles falavam de literatura como se fossem professores, sabiam tudo.</p>
<p>Eles eram inteligentes, bem informados, declamavam poesia. Era completamente surreal. Uns caras cultos, atirados ali. Não quiseram me dizer de onde vieram, mas nem me interessava, porque assim a matéria ficou mais fantástica.</p>
<p>Peguei o livro de um deles. Havia uma dedicatória. Era um dos livros largados no 11 de Setembro. Não acreditei. Já tinha achado os personagens e o cara tinha o livro que eu estava procurando. Daqui a pouco, começaram a discutir, porque um passou a destratar o outro dizendo que Esopo era nada, que era um autor infantil. Eles começaram a discutir literatura na minha frente, algo completamente doido. Contei essa história em uma página do jornal. Quem leu aquilo pensou que eu inventei. Mas é assim que acontece, tem que ter sorte. O repórter, na rua, tem sorte. Dentro da redação, não.</p>
<p><strong>Portal 3 – Como foi a matéria do caso do rapaz do ônibus 174? </strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Saiu a história do rapaz e todo mundo falou dos meninos de rua. No início já saiu que eles eram sobreviventes da Chacina da Candelária. Fui atrás da moça que era uma espécie de protetora deles.</p>
<p><strong>Portal 3 – Tu chegaste a ir para lá?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Não. Fiz por telefone, para ver como telefone funciona. Fiz uma página central na <em>Zero Hora</em> contando a história dessa mulher, a protetora. Ela me deu as informações, e construí a história de quem era aquele guri. Já sabia que ele era sobrevivente da Candelária. O meu mérito foi conseguir entrevistar a mulher ali, na hora, logo depois do acontecido Ela estava muito emocionada.</p>
<p><strong>Portal 3 – Tudo feito por telefone. </strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Tudo por telefone. Entrevistei o Raymundo Faoro (<em>importante jurista, historiador e sociólogo brasileiro</em>) um pouco antes dele morrer, e fiz a página central da <em>Zero Hora</em>. O geógrafo Milton Santos foi outro com quem fiz entrevista assim. Logo depois ele morreu, e publiquei a entrevista inédita. Falar com um cara desses é uma barbada. Telefone é bom por isso também, pois o entrevistado já tem o conhecimento, ele sabe o que tu queres. Esses dois caras estavam morrendo, tinham câncer, e deram entrevista falando de projetos e planos, uma coisa fantástica. Eles já estavam condenados, mas mostravam que queriam viver.</p>
<p><strong>“A pauta nunca é o que tu pensas.</strong><br />
<strong>As coisas se oferecem para ti de uma forma </strong><br />
<strong>completamente diferente do que tu imaginavas.”</strong></p>
<p><strong>Portal 3 – Quais os nomes no jornalismo atual que admiras?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Essa sempre é uma pergunta perigosa, porque se pode esquecer alguém. Mas gosto do Kadão, que é um gênio, um baita parceiro. Da nova geração, gosto do Chuchu (<em>Carlos Etchichury</em>), também de <em>ZH. </em>Acho que é o melhor repórter da nova geração.</p>
<p>Por convivência dentro do jornal, admiro como profissionais e colegas o Nilson Souza, que é editor de opinião da <em>ZH</em>, o Olyr Zavaschi e o Clóvis Malta, que são editorialistas e meus parceiros de ambiente, ficamos na mesma sala. São as pessoas mais dignas que conheço.</p>
<p>Tem um monte de gente dentro da redação. Mas da velha geração é o Kadão, e da nova, o Chuchu. Parece que o jornalismo se renova, as pessoas ficam entrando e saindo. Vocês, estudantes, vão pegar todo esse período do jornalismo que eu não sei o que é, mas que deve ser bom. Como vai ser exatamente eu não sei, mas o jornalismo na internet deve ser bom.</p>
<p><strong>Portal 3 – Qual tu achas que é a maior desvantagem em ser jornalista hoje em dia?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>A bronca hoje é saber o que vai acontecer com o jornalismo. Ninguém sabe.</p>
<p><strong>Portal 3 – E o lado bom?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>O grande lance de ser repórter é ser surpreendido toda vez que sai para a rua para fazer alguma coisa. A pauta nunca é o que tu pensas, as coisas se oferecem para ti de uma forma completamente diferente do que tu imaginavas. As personagens estão te esperando, e é comum frustrar ou furar uma pauta. O melhor de tudo é sentir que a pauta é maior, muito mais surpreendente do que o imaginado. Isso que é fantástico. Então, se tu tens uma ideia, a dica é ir a campo, que tu serás surpreendido.</p>
<p><strong>Portal 3 – Quais características um bom repórter deve ter?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Inquietação, que vale para qualquer área, mas vale mais para o jornalismo. Se não for inquieto, não vai ser repórter. O repórter deve estar sempre em volta do editor, porque editor se acomoda no planejamento, na coisa previsível. O repórter é o pauteiro do jornal. Alguém pode planejar a edição, mas quem vai surpreender e oferecer ao leitor o que ninguém está pensando é o repórter que foi para a rua. A característica de hoje vai ser a do futuro, sempre.</p>
<p><strong>“No Brasil o jornal impresso não está </strong><br />
<strong>desaparecendo porque as coisas são tardias </strong><br />
<strong>por aqui. Ainda há espaço para crescer.”</strong></p>
<p><strong>Portal 3 – O que tu pensas dessa mudança que ocorreu na maneira de fazer jornalismo? Foi uma mudança um pouco brusca, porque, na tua época, era preciso sair da redação para ir atrás da pauta. </strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Passei pelo jornalismo de tipografia na <em>Gazeta</em>, em que a matéria era escrita letra por letra. Era preciso usar uma madeira e imprimir letrinha por letrinha. Sou desse tempo. Passei pela linotipo, de fazer composição a chumbo. Cada linha era como uma barrinha de chocolate, com as letras. Passei pela impressão <em>offset</em>. Agora cheguei ao jornalismo online. Passei por tudo. Maluco isso, né? Só não peguei jornalismo na caneta e a época do jornal de poste, escrito a mão. Mas peguei todo o resto do processo e, sinceramente, não sei o que vai acontecer. Talvez possa ser algo bom, mas realmente não sei.</p>
<p><strong>Portal 3 – Em relação a conteúdo, tu achas que houve mudança? </strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Acho que o que muda mais é o formato. E, claro, o jornalismo não é mais romântico como antes. Não vamos mudar o mundo. Achei que eu ia mudar o mundo, derrubar a ditadura e fazer com que tudo fosse mais justo. Pensei um monte de coisas boas. Hoje não há mais essa coisa ingênua de dizer que o jornalismo pode mudar algo.</p>
<p>No entanto, há jornalistas fazendo coisas interessantes. O Julian Assange (<em>do caso Wikileaks</em>) tirou o jornalismo da inércia. O cara disse que havia coisas acontecendo e ninguém estava sabendo, perguntou por que não haviam ido atrás. Conseguiu um jeito de ir. O Wikileaks é um dos casos mais importantes de jornalismo em meio século. Ainda pode sair muita coisa a respeito disso. Dizem que existe uma estrutura mafiosa no sistema financeiro que quebrou a economia dos países ricos há dois anos. Como é que eles funcionam? Esses documentos vão mostrar isso? Mostrar esse tipo de coisa faz parte do dever do jornalismo.</p>
<p><strong>Portal 3 – O jornal impresso perde com a internet?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Existe aquela tese de que nada na vida é linear, as coisas não acontecem num avanço linear. Nos Estados Unidos e na Europa vários jornais desapareceram. No Brasil não está acontecendo isso porque, como as coisas são tardias por aqui, ainda há muito espaço para o jornal impresso crescer.</p>
<p>A <em>Zero Hora </em>cresce, a tiragem dos outros jornais aqui do estado é alta. Todos têm boa tiragem. O <em>Correio do povo </em>tem uma boa tiragem. Os outros jornais se mantém, como <em>Jornal do comércio </em>e <em>O sul</em>, que o gaúcho gosta de ler.</p>
<p>Acho que o jornal impresso ainda vai sobreviver por bastante tempo. Nos últimos anos houve uma valorização do conteúdo impresso, que parece impor mais respeito, mais credibilidade. Parece estar acima da hierarquia do jornalismo.</p>
<p>Por outro lado, a internet é guerrilha. Um cara sentado em frente ao computador pode produzir um site realmente bom, e tem gente fazendo isso. Nos Estados Unidos tem blogueiro pautando os grandes jornais. Os caras saíram das redações e pautam os jornais. É um caminho, inclusive para os veteranos.</p>
<p><strong>“Quem lê ficção está </strong><br />
<strong>com tudo. Tem que ler.”</strong></p>
<p><strong>Portal 3 – O que tu gostas de fazer quando não está trabalhando? </strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Gosto de desenhar, pintar, sou metido a desenhista. Aliás, pinto e desenho desde criança.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que gostas de ler?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Gosto de literatura. Aprecio livros de jornalismo, mas gosto mais de ficção. Aliás, estudante de jornalismo deve ler mais ficção do que teoria. Teoria é bom para saber como se trabalhava, já que temos um novo jornalismo. Mas é preciso ler ficção.</p>
<p>Se tu lês Machado de Assis, Balzac, Jorge Amado, Erico Verissimo, vai aprender a escrever com aqueles autores. Por exemplo, tu podes pensar que uma narrativa como <em>Os sertões</em>, pela qual sou apaixonado, é velha. Ela é, mas te mostra como o autor conta a história, e isso tu trazes para o hoje. É importante que o profissional domine a fantástica habilidade de descrever. Quem lê ficção está com tudo. Tem que ler.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que estás lendo agora? </strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Estou começando a ler um livro do Celito de Grandi sobre o caso Kliemann. O livro é bom, tem pesquisa, tem tudo ali. É uma versão da história, mas é bom. Todo mundo conta uma versão de um fato.</p>
<p><strong>Portal 3 – Já pensaste em escrever algum livro?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Já escrevi um romance que coloquei no lixo. Depois disso nunca mais fui além das minhas anotações. Tenho um monte de coisas anotadas em casa, mas nunca precisei. Tenho um projeto, que é escrever uma história sobre o Paulo Sant’Ana. Já tenho muitas coisas reunidas. Convivo com ele todos os dias, então já tenho um bom material. Mas a história dele eu não tenho, as coisas de infância&#8230; Ele fala pouco disso, não se abre muito. Mas é um projeto.</p>
<p><strong>Portal 3 – Ele sabe disso?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Sabe. Ele sabe que tomo notas porque às vezes me flagra querendo saber alguma coisa. Ele diz: “Tu estás querendo saber tal coisa porque tu <em>achas</em> que vai escrever a meu respeito”.</p>
<p><strong>Portal 3 – Já pensaste em trabalhar em outro veículo, além de jornal?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Não. Tu tens que saber onde é tu és bom. Eu faço o que sei fazer.</p>
<p><strong>Portal 3 – Chegaste a pensar em fazer outra coisa que não o Jornalismo?</strong></p>
<p><strong>Moisés – </strong>Nunca pensei. Mas, depois de me aposentar, gostaria de desenhar, pintar, fazer essas outras coisas de que eu gosto. Nada com dedicação profissional, é claro. O que sei fazer é escrever.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/entrevistasportal3.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/entrevistasportal3.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/entrevistasportal3.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/entrevistasportal3.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/entrevistasportal3.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/entrevistasportal3.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/entrevistasportal3.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/entrevistasportal3.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/entrevistasportal3.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/entrevistasportal3.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/entrevistasportal3.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/entrevistasportal3.wordpress.com/9/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/entrevistasportal3.wordpress.com/9/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/entrevistasportal3.wordpress.com/9/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=9&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Papos &amp; Pautas: Elmar Bones</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Nov 2010 19:58:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>equipeportal3</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Conversa de jornalista]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[histórias de vida]]></category>
		<category><![CDATA[Moisés Mendes]]></category>
		<category><![CDATA[Zero Hora]]></category>

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		<description><![CDATA[Lílian Stein e Ana Paula Figueiredo Estagiária de Jornalismo De blazer, calça jeans e tênis, Elmar Bones descia as escadas da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), no Centro de Porto Alegre, quando chegamos com meia hora de antecedência para a entrevista, marcada para as 18h. “Não posso ir sem antes tomar um cafezinho”, disse, sorrindo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=1&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Lílian Stein e Ana Paula Figueiredo</strong><br />
<em>Estagiária de Jornalismo</em></p>
<p>De blazer, calça jeans e tênis, Elmar Bones descia as escadas da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), no Centro de Porto Alegre, quando chegamos com meia hora de antecedência para a entrevista, marcada para as 18h. “Não posso ir sem antes tomar um cafezinho”, disse, sorrindo</p>
<p>Pediu para que esperássemos na redação do jornal <em>Já</em>, no mesmo prédio da ARI. Uma das maiores referências do jornalismo alternativo gaúcho, o <em>Já</em> passa por uma fase difícil. Foi condenado a pagar uma indenização à família de Germano Rigotto, a qual moveu um processo contra o jornal depois da publicação de reportagem envolvendo o irmão do ex-governador. Lindomar Rigotto era acusado de participar do maior desvio de verba pública da história do Rio Grande do Sul, presenciou a morte de uma garota de programa – que caiu do alto de seu apartamento, em Porto Alegre – e acabou assassinado durante o assalto a uma de suas casas noturnas no Litoral.</p>
<p>A pequena sala que abriga Elmar Bones e seus companheiros está repleta de livros e histórias. Grande parte delas será contada em uma entrevista de mais de uma hora, que começou na capital, seguiu de carro ao longo da BR e só terminou na Unisinos, onde, mais tarde, o jornalista conversaria com alunos do curso de Jornalismo, em uma palestra da Semana da Comunicação da Fenaj.</p>
<p>Aos 66 anos, Elmar (também conhecido como Bicudo, apelido que ganhou na infância, porque, mesmo fazendo caretas, não conseguia assobiar) é referência importante para pelo menos duas gerações de jornalistas. Presenciou o nascimento de veículos que marcaram a história da imprensa brasileira. Foi repórter e editor nas redações da <em>Folha da manhã</em>, do <em>Coojornal</em> e da <em>Gazeta mercantil</em>.</p>
<p>Na entrevista a seguir, ele fala sobre censura, política, grande imprensa e a situação do <em>Já</em>. Planejando retomar as atividades do jornal em 2011, Bicudo acredita ter feito muito pouco comparando ao que ainda sonha em sua carreira de jornalista: “Estou apenas começando”.</p>
<p><strong>Portal3 – Como foi o início da sua trajetória no jornalismo?</strong><br />
<strong>Elmar Bones – </strong>Comecei no movimento estudantil em Santana do Livramento, onde eu morava, e nós fazíamos um jornal para distribuir entre os estudantes. Na época, existia o jornal <em>A plateia</em>, e era lá que nós íamos fechar o nosso jornal, fazer os textos, editar. Foi aí que eu comecei a me familiarizar com o jornalismo.<br />
Depois acabei trabalhando n’<em>A plateia</em> como revisor e repórter. Tudo o que fiz foi como amador, porque não havia curso de Jornalismo no interior. Quando vim para Porto Alegre fazer o vestibular, acabei fazendo Jornalismo, mas não estava decidido. Apenas cheguei aqui e acabei fazendo.</p>
<p><strong>Portal3 – Em qual universidade?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Estudei na UFRGS, no tempo que era no Campus Central e o Jornalismo era junto com a Filosofia. Todas as ciências humanas eram no mesmo prédio. Mais tarde, durante o período militar, o Jornalismo saiu de lá. De certa forma, era uma estratégia para separar os grupos estudantis e enfraquecer o movimento. O Jornalismo, que era junto com a Filosofia, Sociologia, Ciência Política, Geografia, perdeu bastante com essa separação. Era um ambiente mais rico e propício para a formação acadêmica.</p>
<p><strong>Portal3 – O senhor chegou a se formar?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Não. Fiz todo o curso, mas no último exame, de Taquigrafia, cheguei atrasado e a professora não me deixou entrar. Teria que pedir um recurso para fazer a prova depois e, como já estava trabalhando, acabei desistindo. Estava empolgado com meu trabalho e achei que a universidade não era uma coisa com a qual valia a pena ficar perdendo tempo. Acabei perdendo várias coisas por não ter o diploma, como bolsas para o exterior e viagens.</p>
<p><strong>Portal3 – Naquela época o senhor trabalhava onde?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Trabalhava como repórter na <em>Folha da tarde</em>, da Caldas Júnior. Era um jornal muito forte, um vespertino que saía perto do meio-dia e tinha uma venda enorme em Porto Alegre. Chegava aos 90 mil exemplares. Na época, a Caldas Júnior era dona do <em>Correio do povo</em>, o mais influente do Estado, da Rádio Guaíba e da <em>Folha da tarde</em>. Depois passou a ter a <em>Folha da manhã</em> e a TV Guaíba e mais tarde faliu, mas, naquele momento, a empresa era o melhor espaço de imprensa do Rio Grande do Sul.</p>
<p><strong>Portal3 – Quanto tempo o senhor ficou por lá?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Fiquei um ano e meio. Era editor da página de Educação quando surgiu a oportunidade de ir para São Paulo. A Editora Abril estava recrutando jovens jornalistas do Brasil intero para fazer uma revista semanal, que viria a ser a <em>Veja</em>. Eu me inscrevi, fui aprovado e fui para lá. Fiquei lá uns quatro, cinco anos.</p>
<p><strong>“A censura vetava, e a gente</strong><br />
<strong>forçava a barra para publicar”</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p><strong>Portal 3 – Qual era, naquele momento, a proposta da <em>Veja</em>?</strong><br />
<strong>Elmar –</strong> O Brasil não tinha a tradição de fazer revistas semanais de informação, do tipo que circulava às segundas-feiras ou no domingo e fazia um resumo de tudo de mais importante que havia acontecido na semana. Nos Estados Unidos, esse já era um costume desde a década de 20. Essas revistas aprofundavam os temas de uma maneira que os jornais diários, mais noticiosos, não faziam.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que, no Brasil, mais se aproximava desse formato semelhante às revistas americanas?</strong><br />
<strong>Elmar –</strong> O mais próximo desse gênero era a revista <em>O cruzeiro</em>, do Diários Associados. Era uma revista dos anos 50 que foi de grande sucesso, mas não tinha o objetivo de ser um resumo da semana. Era uma revista mais sensacionalista, trabalhava com casos de grande impacto, geralmente policiais. Chegava a inventar matérias, e mesmo assim era uma revista bem sucedida, que chegou a vender 700 mil exemplares. Nos anos 1960, era a síntese de um fenômeno incrível no país, nenhuma outra publicação vendia isso. Existia também a Manchete, uma revista fotográfica, de <em>flahses</em> e matérias pequenas. Mesmo assim, não se enquadrava na concepção americana de semanário de informações. A <em>Veja</em> seria a primeira.</p>
<p><strong>Portal 3 – Como o grupo de preparou para criar o formato da revista?</strong><br />
<strong>Elmar –</strong> Não se sabia como fazer e não havia mão-de-obra para esse tipo de jornalismo semanal. Sequer tínhamos um modelo, ainda que a inspiração fosse revistas como a <em>Time</em> e a<em> Newsweek</em>. Era preciso formar uma equipe, garimpar editores, repórteres e redatores. Ficávamos lendo revistas semanais européias e americanas para buscar referências. Mesmo assim, era preciso desenvolver algo novo, linguagem e texto próprio, uma maneira de abordagem que nos identificasse. A proposta era fazer um jornalismo segmentado, dividido em editorias, como política, economia e meio ambiente. Hoje, essa ideia é um pouco ultrapassada, porque uma notícia de dois dias já soa como velha. A internet dinamizou a informação.</p>
<p><strong>Portal 3 – Como foi o começo da revista?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Era um momento muito ruim, a revista não ia bem. A <em>Veja</em> demorou cerca de sete anos para se firmar. Durante os anos em que estive lá, ela patinava. Não tínhamos muita noção de nossas fragilidades e não estávamos conseguindo acertar. As vendas eram pequenas, os temas que podiam ser de interesse do público eram proibidos, e o ambiente não era bom. Havia comentários de que a Abril fecharia a revista, que estava dando prejuízo e criava problemas políticos para a editora.</p>
<p><strong>Portal 3 – Esses problemas tinham relação direta com a ditadura?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Sim. Como estávamos em um regime militar e precisávamos chamar o público, acabávamos abordando assuntos que o governo não queria que fossem abordados. A censura vetava, e a gente forçava a barra para publicar. Nas vezes em que conseguíamos, terminávamos com problemas para a empresa. O diretor tinha que dar depoimento, as outras revistas da empresa perdiam anúncios&#8230; Por isso falava-se até que o Victor Civita, presidente da Abril, pensava em fechar a <em>Veja</em>. O ambiente de São Paulo também era muito tenso. Havia as guerrilhas urbanas. De repente, bloqueavam uma rua inteira, e um batalhão do exército revistava todo mundo.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que o senhor acha da fórmula atual da <em>Veja</em>?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>A <em>Veja</em> encontrou uma saída em uma espécie de sensacionalismo. A revista buscou um tom conclusivo, mais opinativo e menos informativo. Ela se detém em grandes denúncias, matérias de impacto, e acabou se desprendendo da ideia de fazer um resumo da semana. Ela ainda faz, mas a realidade se tornou muito mais complexa. A revista surgiu em 1968, em um país com 70 milhões de habitantes. O volume de fatos que deveriam ser abordados era muito menor.<br />
A <em>Veja</em> abriu mão do rigor na apuração jornalística e forçou uma linguagem mais sintética, com uma interpretação unilateral das coisas. Ela adotou um ponto de vista neoliberal e é por ali que ela faz a seleção dos fatos. É muito antipetista, anti-Lula, e não tinha essas características antes, era uma revista mais distante e fria. Aparentemente, se dá bem, pois, mesmo longe da fórmula original, ainda é a maior revista brasileira.</p>
<p><strong>Portal 3 – Quando o senhor saiu de lá?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Em 1974. Fiquei pouco mais de quatro anos na revista. Entrei como estagiário, passei a ser repórter, repórter especial, redator e editor, e aí surgiu uma oportunidade de voltar para o Sul.<br />
A Caldas Júnior havia lançado em 1969 a <em>Folha da manhã</em>, que já não estava indo bem. Depois de ter chegado a vender até 10 mil exemplares, tinha uma tiragem de 4 mil, número muito baixo para um jornal da maior empresa de comunicação do Estado na época. A ideia era reformá-lo, e nossa ideia foi transformar o jornal em uma publicação mais política.</p>
<p><strong>Portal 3 – Qual era a proposta da <em>Folha da manhã</em>?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Achávamos que o país queria mudar, que a população já não estava mais satisfeita com a falta de eleições, com a censura na imprensa. Havia um sentimento de abertura, de saber de coisas não publicadas, discutir política. Além de política e economia, pensávamos em fazer reportagem. A ideia era buscar fatos que não eram abordados pela imprensa. O jornalismo da época havia sido burocratizado, havia se tornado rotineiro e óbvio, até mesmo por conta da censura.</p>
<p><strong>Portal 3 – Como era a relação do jornal com o governo?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Buscamos dar espaço até mesmo aos partidos políticos, que praticamente não se manifestavam. Antes disso, não havia acompanhamento da vida partidária. Existia a proposta de discutir os projetos do governo, que havia cassado grande parte da oposição para ter maioria nas votações e, por isso, tinha todos os seus projetos aprovados. Queríamos contestar esses projetos. O jornal cresceu rápido, chegamos a vender 20 mil exemplares, e isso começou a gerar problemas. A Polícia Federal chegou a apreender a <em>Folha</em>.<br />
Houve um episódio envolvendo a Brigada Militar de Canoas em que, em uma briga de gangues, os policiais invadiram uma vila e um homem acabou degolado. Um vizinho contou para o nosso repórter, que era o Caco Barcellos, que os brigadianos tinham jogado futebol com a cabeça do morto. Uma bobagem, mas o Caco colocou essa declaração e ela foi publicada. Caiu como uma bomba no governo, e esse episódio, além de tantos outros, acabou com as condições de permanecer no jornal. Em julho de 1974, eu saí da Folha. Foi então que começou a surgir a cooperativa.</p>
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<p><strong>“O Coojornal tinha grande prestígio até mesmo junto a políticos do governo.<br />
Jarbas Passarinho, na época ministro da Educação, era assinante do jornal”</strong></p>
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<p><strong>Portal 3 – O que exatamente era o <em>Coojornal</em>?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Dentro das empresas, era impossível fazer um jornalismo que não estivesse subordinado ao governo. Saí da <em>Folha</em> e fui trabalhar na <em>Gazeta mercantil</em> como correspondente em Porto Alegre. Durante esse tempo, em discussões de mesa de bar, surgiu a cooperativa, que teve 65 jornalistas presentes já na sua assembleia de criação. Na época, havia muitos jornalistas desempregados, e essa ideia era vista como mais uma opção. O objetivo inicial era fazer um jornal semanal, mas não tínhamos condições para isso. Para arrecadar recursos, decidimos começar fazendo jornais para terceiros. Fizemos publicações para a Elevadores Sur, Inter, Banrisul&#8230; Esse jornal do Inter, que era da cooperativa, chancelado pela direção colorada, tinha anúncios, chegou a vender 20 mil exemplares por edição e acabou sendo um dos carros-chefe do nosso jornal. Depois de pouco mais de um ano, resolvemos lançar o <em>Coojornal</em>, um mensário.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que o <em>Coojornal</em> abordava?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Tudo o que a imprensa não podia abordar. Tentávamos camuflar os assuntos para que a censura não chegasse ao jornal. Queríamos discutir a anistia, pois havia uma mobilização dos partidos para trazer seus exilados de volta. Alguns dos principais líderes do país estavam exilados, como o Brizola, Jango, Miguel Arraes e José Serra, e havia uma campanha para anistiá-los. Como anistia era um tema proibido pelo governo, nós falávamos das anistias do ponto de vista histórico. Contávamos essas histórias para mostrar que o processo de anistia e de redemocratização era um processo pelo qual o país já havia passado. Começamos a abordar também a questão das torturas, mas sempre com muito cuidado, para não atrair a censura.</p>
<p><strong>Portal 3 – Em algum momento a censura chegou ao <em>Coojornal</em>?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>O <em>Coojornal </em>nunca teve censura. Enquanto isso, os grandes jornais brasileiros, como o <em>Jornal do Brasil</em>, <em>Estadão</em>, <em>O Globo</em> e <em>a Folha de S. Paulo</em>, além da <em>Veja</em> e da <em>Rede Globo</em>, que na época eram os grandes influenciadores da opinião pública, firmaram um acordo com o governo.</p>
<div id="attachment_22681" class="wp-caption alignleft" style="width: 245px"><img class="size-full wp-image-22681" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2010/10/Rafael-Guimaraens-Elmar-Bones-Rosvita-Saueressig-Osmar-Trindade-foram-presos-em-1980..jpg" alt="" width="235" height="153" /><p class="wp-caption-text">Rafael Guimaraens, Elmar Bones, Rosvita Saueressig e Osmar Trindade, jornalistas do Coojornal, buscavam driblar a censura abordando temas polêmicos a partir de uma visão histórica. Foto: arquivo pessoal</p></div>
<p>O governo ia aos poucos tirando a censura das redações, e, em contrapartida, os veículos evitavam abordar os temas que o governo não queria. Criou-se, então, uma autocensura bastante forte, e nós achávamos que aí havia um grande espaço. Durante quase sete anos nós conseguimos driblar a censura, mas à medida em que o jornal se tornava mais conhecido, chamava mais atenção do governo e ia atraindo a censura para si. Era uma façanha um jornal editado em Porto Alegre, mensal, com uma proposta diferente, de textos extensos e um preço de capa bem acima da média, vender em todos os estados do Brasil. O <em>Coojornal</em> tinha grande prestígio até mesmo junto a políticos do governo, porque ainda que tentasse quebrar a barreira da censura, sempre se mostrou bastante ponderado. O Jarbas Passarinho, que na época era ministro da Educação, era assinante do jornal.</p>
<p><strong>Portal 3 – Em que momento o <em>Coojornal </em>começou a enfraquecer?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Acabamos recebendo, em 1979, uma documentação do Exército sobre uma guerrilha que havia ocorrido há bastante tempo em São Paulo, comandada por Carlos Lamarca, sobre a qual nunca havia se falado nada. Esse documento descrevia como havia ocorrido a guerrilha e foi entregue por um militar. Desconfiamos que pudesse ser uma armadilha, mas não havia o que fazer. O material era importante do ponto de vista jornalístico. Publicamos esse relatório em 1980 e foi então que teve início um processo para acabar com o <em>Coojornal</em>, que começou a perder leitores e clientes, teve sua equipe dispersada e acabou sucumbindo em 83. O governo alegava que a publicação de dados sigilosos ia contra a Lei de Segurança Nacional, fomos acusados de ter subornado o militar&#8230; Era uma armadilha, mas não havia o que fazer. Tínhamos o material e era preciso publicá-lo. Até hoje esse é um cadáver insepulto.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que o senhor fez depois do fim do <em>Coojornal</em>?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Voltei para a imprensa convencional. Fui trabalhar na <em>Gazeta mercantil</em>. Fui para Livramento, Brasília, Florianópolis e finalmente Porto Alegre. Um grupo de intelectuais havia lançado o jornal <em>Já</em>, e eu comecei a trabalhar com eles. O grupo original acabou se afastando, outros jornalistas se juntaram a mim e começou a história do <em>Já</em>, que é bem semelhante a do <em>Coojornal</em>. Os dois tiveram um desenvolvimento inicial bastante positivo, cresceram e acabaram atraindo para si uma pressão muito forte.</p>
<p><strong>“Se tu estás mal com o governo, todo o mercado </strong><br />
<strong>se contamina, e o jornal acaba inviabilizado”</strong></p>
<p><strong><br />
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<p><strong>Portal 3 – A pressão ao Já resultou em um processo movido pela família Rigotto por conta de uma reportagem publicada dois anos depois da morte do irmão do ex-governador Germano Rigotto, Lindomar. Como foi o processo de produção dessa reportagem?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>A reportagem do Rigotto é muito simples. A grande jogada é que os jornais não foram atrás desse assunto. O gancho da matéria é uma fraude envolvendo a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), onde houve desvio de uma alta quantia em dinheiro. Esse desvio foi</p>
<div id="attachment_22679" class="wp-caption alignright" style="width: 372px"><img class="size-full wp-image-22679" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2010/10/Caso-Rigotto-equipe-ja-bom-fim1.jpg" alt="" width="362" height="219" /><p class="wp-caption-text">Grupo de jornalistas em frente à sede do Já Bom Fim, jornal comunitário da Já Editores. Foto: arquivo pessoal</p></div>
<p>articulado principalmente pelo irmão do Germano Rigotto, Lindomar. Ele foi demitido da CEEE, mas, com o desvio da verba, abriu uma rede de casas noturnas no litoral. Depois, se envolveu em outros incidentes, como a queda de uma moça do alto de seu apartamento em Porto Alegre. No fim, acabou assassinado depois de uma festa em uma de suas danceterias. Os jornais deram essas informações, mas de maneira fragmentada. O mérito da reportagem do <em>Já</em> é que ela juntou os fatos, mostrou que a morte do Lindomar fazia parte de um conjunto de fatos que começava na fraude da CEEE, que ainda corria em segredo de justiça, e sem contabilizar punições. Com a morte dele, havia o risco de esse assunto sumir dos noticiários para sempre, e evitar isso era o sentido da matéria.</p>
<p><strong>Portal 3 – Mas a matéria foi publicada apenas dois anos depois da morte&#8230;</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Ele morreu em 1999, e a matéria foi publicada bastante tempo depois, apenas em 2001. Havia sido feita uma matéria quando ele morreu, mas o jornal passava por uma crise e não pôde circular, então o material ficou guardado.<br />
Em 2001, foi decretado segredo de justiça para o caso CEEE, e esse foi o gancho da reportagem. Atualizamos a matéria e publicamos, e foi então que veio o processo. Eram duas ações: um criminal, da qual fomos absolvidos, e a de dano moral, em que acabamos condenados.</p>
<p><strong>Portal 3 – A sentença veio logo após a publicação?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>A reportagem foi publicada em maio e em agosto já tínhamos sido intimados para as audiências. Acho que o único objetivo do processo era deixar esse assunto sob controle. O problema é que o processo se arrastou muito, e o que eles queriam era que houvesse uma condenação, o que desqualificaria o jornal na abordagem do assunto. Houve várias propostas para que fizéssemos acordos, pagássemos a indenização em parcelas, mas eu não aceitei. Acredito que era o que eles queriam que fizéssemos, pois seria como admitir uma culpa que não era nossa. Foi por isso que o processo não se encerrou e segue até hoje.</p>
<p><strong>Portal 3 – De que maneira essa condenação afundou o Já?</strong></p>
<div id="attachment_22685" class="wp-caption alignright" style="width: 325px"><strong><strong><img class="size-full wp-image-22685" src="http://portal3.com.br/wp/wp-content/uploads/2010/10/elmar13.jpg" alt="" width="315" height="210" /></strong></strong><p class="wp-caption-text">Depois de ser condenado a pagar uma indenização à família Rigotto, o diretor do Já aguarda o arquivamento do processo para retomar as atividades do jornal. Foto: arquivo pessoal</p></div>
<p><strong>Elmar – </strong>Quando o processo teve início, Germano Rigotto era um deputado sem grande expressão. Na época em que saiu a condenação, ele já era governador. O <em>Já</em> era um jornal pequeno, não muito bem visto por ser fora de controle e por publicar matérias que desagradavam certos setores. A implicação que isso tem no mercado é muito grande. Foi então que nós começamos a perder anunciantes, como o Banrisul, o governo do estado, estatais, e os recursos foram terminando. Se tu estás mal com o governo, todo o mercado se contamina, e o jornal acaba inviabilizado. <strong> </strong></p>
<p><strong>Portal 3 – Qual a situação atual do <em>Já</em>?</strong><br />
<strong> </strong><strong>Elmar – </strong>Carregamos essa condenação e uma determinação do juiz para que haja intervenção financeira nos bens do jornal. O <em>Já</em> está em um limbo. Estamos tentando retomá-lo aos poucos com a expectativa de que o processo seja arquivado para que possamos retomar nossas atividades. Nossa intenção é nos organizar para retomar o <em>Já</em> no ano que vem, quando esperamos que as condições sejam diferentes. Será um novo governo, de uma linhagem política diferente dos governos anteriores. Existe uma grande manifestação de apoio, há muita gente querendo ajudar, mas ainda é difícil esboçar qualquer reação.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que o senhor pensa da cobertura dos outros veículos em relação a esse caso?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Uma das coisas que o <em>Já</em> fez desde o início foi uma crítica muito forte à mídia, principalmente aos grandes grupos. Não era uma crítica à ideologia, mas à manipulação, omissão de fatos&#8230; Isso nos colocou como inimigos dos grandes grupos. Por isso, eles acham que o que acontece conosco não tem importância. Mesmo a Associação Nacional de Jornais (ANJ), que tem um balanço trimestral de atentados à liberdade de imprensa, nunca inclui a história do <em>Já</em> nesses 10 anos de processo.</p>
<p><strong>“</strong><strong>É fácil ter uma posição construída a partir de posicionamentos ideológicos, </strong><br />
<strong>mas esse não é o objetivo principal de quem trabalha com jornalismo”</strong></p>
<p><strong><br />
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<p><strong>Portal 3 – Quais são os grandes nomes do jornalismo para o senhor?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>O Mino Carta, que com mais de 80 anos continua batalhando em sua revista. Ele é uma inspiração. Tem uma equipe bastante reduzida e faz uma revista que exerce grande influência.<br />
Houve muita gente que foi marginalizada, os mais inquietos foram deixados de fora. O problema da imprensa não é a falta de competência. É a falta de autonomia do jornalista, e isso leva a uma queda na qualidade. O profissional tem medo, não quer fazer matérias polêmicas, não tem abertura para isso, e vai se criando um ambiente que não favorece o surgimento de grandes trabalhos jornalísticos.</p>
<p><strong>Portal 3 – Quais as características que o senhor acha que um bom repórter deve ter?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>As características são as mesmas de sempre, independente das mudanças que o jornalismo sofra: deve prestar atenção, ir atrás dos fatos e tentar relatar o que viu. Principalmente na internet, hoje, se vê que é comum o profissional fazer uma seleção dos fatos de acordo com a sua opinião, mas é preciso tentar se projetar o mínimo possível na matéria. O repórter deve relatar o que aconteceu sem colocações, interpretações e teses próprias. É necessário respeitar sempre o leitor, passar as informações o mais correta e objetivamente possível. As conclusões devem ficar por conta de quem está lendo.</p>
<p><strong>Portal 3 – Q</strong><strong>ual a maior dificuldade de um jornalista?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Como escrevemos para muitas pessoas, ficamos tentados a influenciar. Muita gente faz isso, mas o jornalista presta melhor serviço quando não tenta influir, apenas informar. No entanto, isso é muito mais difícil. É fácil ter uma posição construída a partir de posicionamentos ideológicos ou interpretações sociológicas, mas esse não é o objetivo principal de quem trabalha nessa área. Esse jornalismo de doutrinação tem sua importância, mas eu não me considero muito apto a exercê-lo.</p>
<p><strong>Portal 3 – </strong><strong>Quais os pontos altos da sua trajetória profissional?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>O jornalismo é mais rotina do que o sensacional. O jornalista está sempre buscando um fato sensacional, mas, na verdade, ele vive mergulhado numa rotina, e o mais difícil é vencer essa rotina. É preciso acompanhar e conhecer a rotina, e ainda assim achar um ângulo novo, uma maneira nova de tratar o fato, pois são por meio desses processos rotineiros que se entendem os acontecimentos e se constrói o jornalismo.<br />
A ideia do jornalismo como uma profissão glamourosa, de grandes coberturas, é um pouco falsa. A realidade é o dia a dia do jornal, e a qualidade depende de como ele trabalha esse dia a dia.</p>
<p><strong>Portal 3 – </strong><strong>Quais as desvantagens de ser jornalista no Brasil?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>O processo de produção de informações é controlado por poucos grupos. Temos uma tradição muito forte de controle do trabalho jornalístico por releases, versões oficiais ou interessadas. O noticiário oficioso é predominante. Ele vem das assessorias, dos governos. São fatos produzidos para o jornal. Esse oficialismo cria um meio muito burocrático e pobre. O resultado é uma sociedade que quer se democratizar, mas não tem informações qualificadas para fazê-lo.</p>
<p><strong>Portal 3 – </strong><strong>Como o senhor vê a abordagem que a imprensa faz a respeito da candidatura de Dilma Rousseff à presidência da República?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Há muitos grupos especializados no trabalho de manipulação de informação. No caso da Dilma, houve um erro estratégico do pessoal do Serra, que tentou desconstruir a candidatura da petista. Colocaram em xeque sua capacidade de pensar e decidir sozinha, construíram uma artilharia de informações clandestinas e sórdidas. A mídia deu espaço a essas informações e foi criando factóides.<br />
As concessões que a maioria dos grandes jornais faz à candidatura da Dilma têm o único objetivo de manter as aparências. A mídia nunca aceitou essa candidatura. Quando se falou pela primeira vez que Lula estava inclinado a indicar a Dilma como sucessora, as notas afirmavam que era um erro porque a Dilma não era do PT, que o partido iria resistir. Apesar disso, a candidatura avançou. Quando o PT aceitou Dilma, o argumento era de que a candidatura não teria sentido porque ela não era política, nunca tinha feito campanha, não tinha jogo de cintura, era uma tecnocrata, durona e não saberia fazer alianças. Quando a candidatura começou a andar, disseram que ela não era confiável.<br />
Talvez o país não seja mais tão manipulável e ingênuo a ponto de se deixar enganar por esse tipo de situação. Hoje temos a internet, por onde houve uma resistência a esse processo de manipulação, aparentemente com sucesso. Pelo que se vê, hoje o país é muito mais consciente. A opinião pública brasileira já não é tão ingênua e despreparada.</p>
<p><strong>Portal 3 – </strong><strong>Em algum outro momento da história a imprensa agiu de forma semelhante?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Na derrubada do governo em 1964, houve um caso parecido, com resultados funestos. Foi uma crise criada, não havia crise no governo nem risco de instabilidade no Brasil. Existia um momento de grande intensidade política, de debate tenso, mas não havia ameaças à estabilidade. As ameaças foram criadas por um processo articulado de manipulação de informações que contou com a colaboração da imprensa, que ficou quieta e fechou os olhos. Hoje se sabe que houve um projeto mal organizado. Especialistas trabalharam nisso, financiaram candidaturas, jornalistas, jornais e publicações para criar um ambiente que justificasse uma intervenção militar.</p>
<p><strong>Portal 3 – </strong><strong>O que o senhor achou do posicionamento do <em>Estadão</em> na atual eleição ao declarar-se a favor de um candidato em editorial?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>O <em>Estadão</em> apenas formalizou o que todo mundo já sabia. É melhor que tenha formalizado, pois, se há um posicionamento e ele exerce influência de determinada maneira, o jornal deve declarar sua posição. Os jornais americanos fazem isso frequentemente, e muitas vezes depois também publicam uma autocrítica, na qual reconhecem possíveis erros que tenham cometido ao se posicionar. O que é pernicioso é essa postura aparentemente imparcial e isenta, quando, na verdade, a empresa tem uma posição que acaba sendo imposta à redação. É o que acontece na maioria dos casos.</p>
<p><strong>Portal 3 – </strong><strong>O que o senhor achou da cobertura da imprensa no caso dos mineiros chilenos? Houve muitas críticas à quantidade de jornalistas no local. Era necessário tudo isso ou foi um pouco de espetáculo?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>A espetacularização é um sintoma da nossa época e é meio inevitável. O caso dos chilenos despertou uma curiosidade enorme em todo mundo. Todos os veículos e, principalmente, a televisão queriam participar da cobertura. O problema não é que haja um excessivo interesse pela exploração do fato, pois todo mundo viu que isso ia render, mas o lado negativo disso é que não há esse empenho na cobertura dos fatos permanentes, fatos cotidianos da política, da economia. O jornal não tem rigor com os pequenos fatos do dia a dia, o jornal não tem esse rigor e não luta por esclarecer os fatos. Quando é um fato sensacional, o jornal envia cinco repórteres e quer esmiuçar os fatos, então é um comportamento meio esquizofrênico, e o resultado é que se tem uma coisa excessiva, como é o caso dos mineiros. A televisão ainda tem uma coisa entre o entretenimento e a informação, entre o sensacional e o acompanhamento do que está acontecendo.</p>
<p><strong>Portal 3 – O que o senhor ainda não fez no jornalismo e gostaria de fazer?</strong><br />
<strong>Elmar – </strong>Eu fiz quase nada (<em>risos</em>). Estou apenas me preparando para começar.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/entrevistasportal3.wordpress.com/1/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/entrevistasportal3.wordpress.com/1/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/entrevistasportal3.wordpress.com/1/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/entrevistasportal3.wordpress.com/1/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/entrevistasportal3.wordpress.com/1/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/entrevistasportal3.wordpress.com/1/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/entrevistasportal3.wordpress.com/1/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/entrevistasportal3.wordpress.com/1/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/entrevistasportal3.wordpress.com/1/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/entrevistasportal3.wordpress.com/1/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/entrevistasportal3.wordpress.com/1/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/entrevistasportal3.wordpress.com/1/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/entrevistasportal3.wordpress.com/1/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/entrevistasportal3.wordpress.com/1/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=entrevistasportal3.wordpress.com&amp;blog=21877944&amp;post=1&amp;subd=entrevistasportal3&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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