Paola Oliveira e Ana Paula Figueiredo
Estagiárias de Jornalismo
Colaboração de Marcelo Garcia
A jornalista Tânia Carvalho abriu as portas de sua casa e de sua vida numa tarde chuvosa para a equipe do Portal3. No aconchego do lar, repleto de fotografias de momentos marcantes, falou sobre seu fascínio pelo jornalismo, que vem desde cedo, quando ainda morava em sua cidade natal, Bagé. Relembrou de como começou na carreira, meio que por acaso, e deu dicas valiosas para quem pretende seguir na profissão.
A primeira apresentadora do Jornal do almoço atualmente faz dois programas na TVCOM, o Gurias de quinta, que vai ao ar toda quinta-feira, às 17h, e o Café TVCOM, na companhia de Tulio Milman, Tatata Pimentel, David Coimbra, Thedy Corrêa e José Antônio Pinheiro Machado, além do programete Boa dica, da Itapema FM e Gaúcha Comportamento, na Rádio Gaúcha, à meia-noite de domingo.
A entrevista com Tânia Carvalho integra a série Papos & Pautas, em que grandes nomes do jornalismo gaúcho são entrevistados por estagiários do Portal3. Já passaram por essa o diretor do Jornal JÁ, Elmar Bones, o repórter e editor especial de Zero Hora Moisés Mendes e o comentarista e colunista esportivo Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha.
Portal3 – Onde nasceste?
Tânia Carvalho – A minha história é muito longa, e quanto mais velha eu fico, mais longa ela vai ficando. Nasci no dia de Natal de 1942, em Bagé. Minha mãe achava que ninguém nascia no dia de Natal. Fui lá eu nascer num dia bem lindo, numa manhã ensolarada, na cidade que adoro. Voltei lá faz uns dias, para o Jornal do almoço. Foi emocionante, chorei que me matei. A lágrima não corria, ela saltava de chuveirinho (brinca) de tão emocionada que fiquei de voltar à minha terra. Nasci na Rua General Osório. Fui lá ver a minha antiga casa. Agora é uma loja de tecidos. Achei muito engraçado, porque consegui ver todas as casas, mas não vi a minha, pois a fachada estava coberta com painéis por causa da loja de tecido. Tenho ainda família em Bagé. Primos, amigos, as amigas da minha mãe, que são umas senhorinhas. Minha mãe teria 88 anos, mais até. Então, elas me dizem: “Eu era amiga da tua mãe, era amiga das tuas tias”. Fiquei muito tocada com isso.
Portal3 – Bagé é grande ou parece mais com cidade do interior?
Tânia – Bagé é uma pequena cidade, mas é uma cidade muito importante porque foi a primeira do Rio Grande do Sul a ter automóvel e luz elétrica. Foi uma cidade que resistiu às fronteiras. Tem umas lindas histórias de Bagé que sempre soube e agora fiquei sabendo mais, nos 200 anos da cidade. Conforme o Tatata (Pimentel), estavam festejando os meus 200 anos (risos), e não os da cidade. Ele adora pegar no meu pé, mas é meu grande amigo. Nasci lá, morei em Bagé até os dez anos. Depois, minha mãe veio para Porto Alegre, e eu vim também, para estudar aqui. Minha mãe se casou novamente. Desde 1952, moro em Porto Alegre.
Portal3 – O que faziam os teus pais?
Tânia – Meu pai trabalhava num banco. Minha mãe, junto com a minha avó e as minhas tias, costurava. Minhas tias eram modistas de alta costura mesmo, e a minha mãe bordava chapéus, bolsas. Digamos que ela teve a primeira butique de Bagé. Ela vinha a Porto Alegre antes das festas, das exposições de gado e trazia coisas para bordar: vestidos, chapéus, bolsas e sapatos. Elas trabalhavam com coisas e artes manuais, com muito talento. Tenho fotos delas com as roupas bordadas, os vestidos maravilhosos. É muito lindo.
“Sempre trabalhei com jornalismo, antes de
existir jornalismo dentro da faculdade.”
Portal3 – Tu tens formação acadêmica?
Tânia – Nunca fiz universidade, nunca fiz faculdade de Jornalismo, que foi uma coisa que me cobrei durante séculos. Mas sempre trabalhei com jornalismo, antes mesmo de existir jornalismo dentro da faculdade. Não tenho certeza, mas acho que era um curso dentro de outro. Me cobrei muito por isso. Fiz o ginásio no Bom Conselho, fiz o clássico no Júlio de Castilhos. Quando ia fazer a faculdade, me casei e fui morar em São Paulo. Casei com um ator (Geraldo Del Rey) e convivi muito no meio de cinema, de teatro e de televisão. Estavam começando as novelas na TV Excelsior, e imediatamente fomos para Lisboa, onde ele foi trabalhar em um filme.
Portal3 – Como começastes a trabalhar como jornalista?
Tânia – No Yázigi, em Porto Alegre. Foi ai que comecei. Tudo que acontecia, eu queria mandar notícias para os jornais. Não tinha xerox, batia à máquina com papel carbono ou passava no mimeógrafo para mandar a mesma notícia para vários jornalistas e vários jornais. Se tinha uma exposição no Yázigi, uma exposição de gravuras do Salvador Dalí ou do Picasso, eu queria enviar a notícia. Então, já fazia, sem saber, o jornalismo.
Portal3 – A primeira assessora de imprensa.
Tânia – Exatamente. Assessoria de imprensa sem existir assessoria de imprensa. Isso era nos anos 60, final dos anos 50. Quando casei e fui morar em São Paulo, imediatamente fui contratada pela Editora Abril, para o departamento comercial, só que eu não vendia nada. Pelo contrário, dizia: “Coitadas das pessoas, não têm dinheiro para comprar anúncio”. Caía na conversa dos outros, e não tinha uma boa conversa comercial. Então uma colega e amiga me disse: “Vem para a redação”. Eu tinha um bom texto, lia muito, sempre fui uma grande leitora. Aí fiquei na redação e foi uma grande realização, tanto que digo, a minha universidade, a minha faculdade foi a Editora Abril, em São Paulo, onde trabalhei por sete anos. Passei pela revista Cláudia, pela Manequim. Quando fundaram a Realidade, eu estava lá. Convivi com toda essa gente fantástica que fez um novo jornalismo no Brasil. Meus amigos todos estão espalhados por aí ou são escritores. Tenho uma turma de colegas que foram os meus professores, a minha faculdade.
Portal3 – Mesmo assim, nunca pensastes em cursar jornalismo?
Tânia – Quando voltei para Porto Alegre, nos anos 70, fui trabalhar em galeria de arte. Eu me cobrava, dizia: “Vou fazer uma faculdade, não é possível, eu vou fazer”. Aí o Tatata (Pimentel) me dizia que eu é quem deveria dar aula. “Eu sou professor de universidade, o que tu quer saber?”, ele provocava. Então acabei indo por outro caminho, me conformando e aceitando um pouco a minha não-formação com a formação que tive por meio de todas essas revistas. Na Realidade não trabalhei, só convivi com as pessoas que estavam criando. Me consolei um pouco, fiquei mais tranqüila, me apaziguei, achando que realmente eu tinha um bom conhecimento e que valia seguir a profissão, e a minha curiosidade era suficiente para aprender o que não tinha aprendido.
Portal3 – A Editora Abril, em São Paulo, foi mesmo o centro de um novo jornalismo.
Tânia – Foi na Editora Abril onde nasceu tudo, no final dos anos 60 e começo dos anos 70. Morei dois anos em Portugal, morei em Lisboa, em Porto, e de lá mandava as matérias e ficava imaginando: “O que será que está acontecendo agora no Brasil?”. Era um momento muito punk no país. Quando voltei, em 1967, meu filho Fabiano estava nascendo, eu me senti quase que responsável por também contar aquela história.
Portal3 – Nas revistas tu produzias textos? Como era?
Tânia – Escrevia, produzia fotos, marcava as pautas, eu fazia o diabo. Era muito amiga do pessoal do teatro, de televisão e de cinema. Era amiga do Glauber (Rocha), da Helena Inês, da Dina Sfat, amiga do pessoal do Teatro Oficina. Então isso me dava outra abertura, outro tipo de pensamento, acompanhando também todos esses movimentos da Nara Leão, da bossa nova, do que estava surgindo no momento: a (Maria) Bethânia cantando Carcará, o Caetano (Veloso) e o (Gilberto) Gil chegando à rodoviária de São Paulo. Foi muito legal porque acompanhei todos esses movimentos do Cinema Novo, o novo movimento das novelas, atores de teatro revolucionário fazendo uma revolução dentro do teatro brasileiro, com peças políticas, etc. Era um momento raro. Fiquei sete anos na Editora Abril entre idas e vindas, como freelancer, porque me afastei, fui para Portugal. Em 1970 vim para cá, mas continuei trabalhando, fazendo freelancer, fazia muito aqui de Porto Alegre. Trabalhei numa revista chamada Wonderful, uma revista magnífica de jornalismo. Seria a precursora da Caras. Daniel Mars e uma gente muito legal trabalhava nessa revista. Isso sempre me deixou em contato com os grandes jornalistas e os nomes do jornalismo.
Portal3 – Como chegaste à TV?
Tânia – Me separei em 1970 e vim passar férias em Porto Alegre, com o meu menino, o Fabiano. Tinha saído da Editora Abril, estava mais ou menos, e resolvi morar aqui. Quis ficar perto da minha mãe, da minha família, dos meus tios. Resolvi morar em Porto Alegre. Fui trabalhar na Galeria Esfera do Yázigi e fui trabalhar também com um costureiro que se chamava Nazaré, para organizar o fichário dele. Estava arranjando uns bicos para sustentar meu filho, pois, sendo ex-mulher de ator, não podia contar muito com a mesada dele. Então fui à luta.
Portal3 – Por que voltaste a Porto Alegre?
Tânia – Para refazer minha vida. Como morava com minha mãe, consegui juntar um dinheiro, e, na primeira oportunidade que tive, fui para a Europa. Fui com um grupo de amigos de São Paulo, visitar galerias, já que estava trabalhando numa galeria, fui ver museus. Quando voltei, dei uma entrevista na TV, no programa da Célia Ribeiro. Naquela época, quando a gente ia para a Europa, voltava e dava entrevista porque era uma coisa fantástica. Quando voltei, a Célia Ribeiro me fez uma entrevista, ela e o Luiz Carlos Lisboa perguntaram: “Tu não quer vir trabalhar na TV?”. Eu disse: “Ah, acho que quero. Quanto pagam?”. Lembro que era 1.400, não lembro que moeda era na época, e o apartamento que eu queria me mudar custava 700 e poucos. Então pensei: “Claro, dá para pagar o apartamento e sobra quase o dobro”. Comecei a trabalhar na TV para poder me mudar. Alugamos um apartamento no mesmo edifício da minha mãe. Enfim, estreei em um programa de TV, que estava começando em 1972, que era o Jornal do almoço, fui a primeira apresentadora. Então comecei uma carreira em televisão. Já tinha experiência de São Paulo, mas de brincadeira, de fazer teatro com o pessoal do Teatro Oficina. Fiz um teatro infantil, eu estava grávida e fazia um menino gordo. Foi muito engraçado. Eu era um travesti, como eu dizia. Uma mulher grávida fazendo um menino gordo, era uma peça infantil revolucionária, com um texto fantástico, para que não houvesse dúvidas de que estávamos fazendo peça infantil, mas também os adultos queriam levar uma mensagem legal. Era essa a grande preocupação em um momento de censura.
Portal3 – Como foi o início no Jornal do Almoço?
Tânia – Foi um terror! Não sabia fazer entrevista. Fazia uma pergunta para a pessoa, ela respondia e eu ficava satisfeita. Dava pausas, que não era a pausa de TV. Ficava aquele silêncio, e o diretor gritava: “Falaa!” (risos). Não tinha ponto ainda. Todo mundo tendo que fazer o final, e eu: “Ah, que interessante!”. A Romanita Disconzi foi a minha primeira entrevistada. Ela fazia uma arte revolucionária na época.
“Adoro, amo viajar! É a melhor coisa do mundo
que alguém pode fazer por si mesma.”
Portal3 – Qual a principal diferença do jornalismo daquela época, em que começaste no Jornal do almoço, em comparação com hoje?
Tânia – Primeiro é toda a tecnologia que nós não tínhamos. Adorava ficar vendo um colega que trabalhava com os filmes que chegavam e ele colocava numa roda imensa para secar, para no outro dia então passar, pois eles registravam em filmes, os jogos de futebol, tudo. Os rolos das entrevistas de rádio eram num gravador enorme e era preciso carregar uma mala. Lembro que no primeiro festival de cinema que fiz a cobertura com telefone celular, o telefone era quase do tamanho de um tijolo e tinha uma mala para carregar, que era o carregador, a estação do telefone. Então, toda essa geração de hoje é diferente. Por exemplo, eu aqui, no celular, mando uma mensagem para uma amiga, recebo o recado do meu marido. Essas coisas no jornalismo que são tão importantes, de estar conectado, não existiam. Lembro que brigava com os meus produtores: “Vocês para produzirem têm que ir na casa das pessoas, têm que falar com as pessoas”, porque como é que nós íamos falar? Só por telefone, e nem sempre era eficiente, eficaz. Se tu querias fazer uma ligação interurbana, levava três, quatro, cinco horas. Tu ficavas em casa esperando. Então tudo que a gente tem de tecnologia agora nos abre todas as fronteiras. Existia também uma coisa mais familiar no jornalismo, não tinha tanta ética, claro que sempre teve ética, mas era uma coisa mais de amigos, de grupos, era mais familiar.
Portal3 – Como foi a transição para o mundo novo da tecnologia?
Tânia – Foi muito legal! Fui uma das primeiras a ter computador. Tenho tudo ao meu alcance, na minha mão, com a ajuda, naturalmente, dos meus filhos, que são dois jovens ligados em todas as redes. Tenho um que é blogueiro oficial, o Diogo. Ele tem um blog www.destemperados.com.br. Ele fez Direito, deixou de ser advogado no departamento jurídico de uma grande empresa para ser blogueiro e se dedicar ao que ele gosta, comidas, restaurante.
Portal3 – E pelo jeito, viajar também.
Tânia – E viajar. Isso eu passei para ele, estava no meu DNA, foi direto.
Portal3 – Quando moraste na Europa, viajaste bastante?
Tânia – Viajei muito, muito. Geraldo (Del Rey) e eu compramos um carro, morávamos em Portugal, e íamos passar a Semana Santa em Paris. Ficamos quase dois anos morando fora. Íamos para a França, para vários lugares, de carro, com os amigos, então viajamos muito. Eu sempre amei, adorei viajar. Mais tarde viajei muito também. Depois que vim morar em Porto Alegre, fui a muitos lugares: Índia, China, Japão, Israel, Tailândia. Meu Deus do céu, viajei pelo mundo.
Portal3 – Quantos países conheces?
Tânia – Fora os lugares convencionais, como se diz Elizabeth Arden, Paris-Nova Iorque-Londres, também fiz todos os países mais exóticos, como Hong Kong, que eu adoro! Fui a Pequim, Tóquio, Bangkok.
Portal3 – De qual tu mais gostaste?
Tânia – Ah, não dá para dizer. Gosto talvez daquele que eu não conheça ainda porque adoro as cidades que todo mundo gosta: Paris, Londres, Nova Iorque. Tenho paixão por Nova Iorque, adoro Paris. Me apaixonei agora por Berlim, no ano passado. Fui a Berlim, voltei a Amsterdã, que eu já conhecia, já tinha ido várias vezes, mas meu marido não, então fomos à Amsterdã, Berlim, Praga. Adoro, amo viajar! É a melhor coisa do mundo que alguém pode fazer por si mesma. Não fume, não compre bolsa de grife, guarde para viajar, porque é a melhor escola que Deus colocou no mundo. Tenho vontade de colocar uma mochila nas costas e sair viajando pelo mundo. É uma coisa tão boa, que te ensina tanto, a cada esquina tu aprende coisas raras. Agora a mochila já me pesa mais, né (brinca).
“Acho que nasci jornalista, sem
saber que existia o jornalismo.”
Portal3 – Já nascestes jornalista?
Tânia – Acho que nasci jornalista, sem saber que existia o jornalismo. Adorava ficar ouvindo rádio. Quando tínhamos telefone em Bagé – um dos primeiros telefones que a cidade teve, foi na nossa casa, que era uma casa cheia de gente –, adorava telefonar para contar histórias. “Consegui copiar a letra do bolero”, dizia para a minha prima, pois eu ficava ouvindo até conseguir copiar a letra. Imagina, na internet, hoje, se copia tudo, tem todas as letras, de todas as músicas do mundo. Era sempre eu que dava as notícias da família. Adorava quando íamos a um lugar e tinha jornal, quando ia à barbearia, na loja do meu tio e tinha um jornal, eu era fascinada. Sempre fui, sempre tive esse fascínio. Tenho um primo que aprendeu a ler recortando as letras do jornal, e isso eu achava uma coisa maravilhosa. Também queria aprender a ler recortando as letras do jornal.
Portal3 – Chegaste a dar aulas, substituir alguns professores do Yázigi. Não pegou o gosto por dar aula?
Tânia – Não. Eu odeio ser professora. Jamais seria professora. Não sei ensinar, não tenho método. Vejo os professores e tenho o maior respeito, mas jamais seria professora. Tentei até fazer o Normal, antes de ir para o clássico no Júlio de Castilhos. Tentei fazer o Normal no Instituto de Educação, mas vi que não era o meu barato, que eu tinha que sair dali correndo porque ia fazer os meus alunos muito infelizes (brinca). Eu ia odiar.
Portal3 – Hoje tu pertences a um grupo seleto de jornalistas dedicados a entrevistar pessoas. Que técnicas costumas utilizar?
Tânia – Minha maior técnica para entrevistar alguém, a maior, que não é segredo, é saber com quem estou falando e o que a pessoa fez. Entrevistei a Márcia Tiburi (filósofa e escritora), e para entrevistá-la li quase metade do seu novo livro. Como vou entrevistar uma pessoa sem conhecer sua obra? Isso é muito comum hoje em dia. A pessoa diz assim: “Como é o teu livro?”. Não. O mínimo que eu posso saber é como a pessoa criou aquele personagem. Isso é o que mostra o interesse e que diferencia o jornalista do jornalista de futilidades. Tenho que saber. Como vou entrevistar a Fernanda Montenegro (atriz) sem conhecer a obra dela, o que ela fez, quais são seus filmes? Isso é o mínimo que alguém te pede para ser um bom entrevistador. Tem que ler, tem que saber o que está acontecendo no mundo, tem que estar na internet para saber as notícias.
Portal3 – Teve alguém que tu admiravas muito e teve que entrevistar e ficou muito nervosa?
Tânia – Olha, tu sabes que as pessoas que eu admiro muito são as pessoas mais fáceis de dar entrevista. Tive de entrevistar Fernanda Montenegro, Paulo Autran… Os mais difíceis são os muito jovens, que se acham estrelas de primeira grandeza. Esses são difíceis. A Malu Mader foi uma grande surpresa, agradabilíssima, pois a Malu é uma pessoa com muita alma, que não está só o corpo ali. Eu sou bipolar, trifásica, bivolt, fico falando mil coisas ao mesmo tempo, mas nessa profissão é bom isso (risos). Não tenho uma pessoa que eu diga: “Ai, eu entrevistei fulano de tal.” Acho que todas as entrevistas são legais, são boas quando tu consegues tirar de alguém uma coisa muito legal, muito sanguínea, que vem lá da alma da criatura. Isso é sempre legal.
“Para trabalhar na TV tem que
ter talento, curiosidade e sorte.”
Portal3 – Como sabes até onde cabe ir em uma entrevista?
Tânia – Também boto meu sangue, ovários, intestino, pulmão, coração em uma entrevista. Faço entrevista com todos os órgãos, alerta todo tempo, e gosto muito. Quando tu pões a tua alma na mesa, consegues isso, consegues fazer uma boa entrevista. Minha segurança está em lidar com as pessoas, e acho que sei, aprendi um pouco. Às vezes ainda aprendo e tomo na cabeça.
Portal3 – Já passaste por alguma saia justa em uma entrevista?
Tânia – Já, mas como sou honesta, me saí bem. O desgraçado do Gerald Thomas (dramaturgo e diretor teatral) uma vez me perguntou: “Você voltou da Europa agora. Não viu uma ópera que tem uns puns e uns arrotos, que é toda ela feita com esses sons do corpo?”. Respondi: “Bah, não vi”, porque o normal seria dizer: “É claro que vi e tal”. Mas eu disse que não tinha visto. E ele insistiu: “Mas você devia ter visto”. Eu falei que não tinha visto e ele respondeu: “Ainda bem que tu não viste, porque não existe, acabei de inventar”. Então a honestidade no jeito que tu fazes as coisas é importante. Uma vez me pediram para não falar em determinado assunto. Eu disse: “Não me pede porque agora vou falar” (risos). Acho horrível. A lealdade com que tu tratas a tua profissão e os profissionais com os quais te relaciona, acho isso muito, muito sério. A gente sabe o que é certo e o que é errado dentro da concepção de cada um, mas a lealdade com a qual tu estás tratando a profissão, os profissionais e as pessoas com quem tu te relacionas, acho isso um luxo.
Portal3 – Agora você está trabalhando menos?
Tânia – Eu trabalhava 24 horas por dia, na TV e no rádio. Um dia pedi demissão: “Quero ir embora”. Perguntaram: “Alguém te fez alguma coisa? Está doente?”, e eu disse: “Pelo contrário. Estou sã e quero ir embora agora. Não quero mais trabalhar todos os dias. Não quero mais ser uma drag queen, me moldar todos os dias, me pintar, me arrumar, me pentear, colocar uma roupa que combine. Estou exausta, cansada”. Não aceitaram. No fim, fiquei com a sexta-feira livre. Separo esse dia para escrever. É o dia de ficar em casa. Nos outros, faço oficina de literatura com a Cíntia Moscovich (escritora e jornalista), aula de inglês, pilates três vezes por semana pela manhã. Na parte da manhã, estou sempre muito ocupada com as minhas coisas, coisas que nunca fiz antes. Então, estou num momento muito legal. A TV não me deu demissão, não quis que eu saísse.
Portal3 – Não trabalhas mais na TV todos os dias?
Tânia – Não. Faço o Gurias de quinta, às quintas-feiras, que é ao vivo, às 17h. Antes eu fazia o Falando, que era um programa diário. Mas mudei toda a minha vida. Me bateu um pânico, uma deprimida, mas não muito. Eu, sempre feliz da vida, numa dualidade bifurcada: saber se era bom ou não o que ia fazer. Aí me disseram: “A gente não quer que tu vá embora”. Eu chorei: “Ai, que amor!”. Foi muito legal, muito lindo! “Estou dando a chance para vocês, pois estão querendo demitir os velhos e não sabem como, eu estou pedindo demissão antes” (brinca). Não queria ter esse impacto, então fui me preparando por três anos para pedir demissão. Não me deram. Que bom, fiquei feliz da vida. Então pensei: “Vou fazer um novo projeto, os meus cursos, as minhas coisas, e vou trabalhar só as quintas-feiras”. Na quarta, vou na TV, faço as reuniões. Na terça, às vezes não aguento e dou uma passadinha para ver como estão as gurias. Deixar uma redação louca, barulhenta, doida, que todo dia tem um aniversário, é difícil, muito difícil. Por isso fui me preparando antes.
Portal3 – O que tu achas importante ter para trabalhar na TV?
Tânia – Tem que ter talento, curiosidade e sorte, para não entrar em um programa que seja uma picaretagem, porque há muitos programas de TV que não são jornalísticos, são programas de venda de entrevistas. Isso não é jornalismo. Às vezes alguém liga para a TVCOM e pergunta: “Quanto custa para dar uma entrevista para a Tânia Carvalho?”. Ora, se for uma coisa interessante, é uma entrevista jornalística, não é? Então não paga nada. Se não é interessante, não vai para o ar. As pessoas são muito vaidosas. Nós todos somos muito vaidosos. As pessoas são uma barra de vaidade. Elas quase se prostituem, eu diria, para usar uma palavra bem forte, para aparecer. Vocês podem ver nos sites, que as pessoas fazem qualquer negócio para estar no ar, para sair na mídia. Vender entrevista e chamar as pessoas para pagar para participar de um programa de TV seria departamento comercial. Tu podes ser um bom comerciante de TV, mas isso não seria jornalismo. Algumas pessoas fazem uma coisa que nunca fiz na vida, detesto e acho de última categoria, que é ser apresentador e vendedor ao mesmo tempo. Vendem espaço, fazem entrevista e ainda dizem que aquilo é diferente de um comercial. Teria que parar de fazer a entrevista e dizer: “Agora estou vendendo um celular e tal”. Se não, fica tudo misturado, o comercial, as pessoas… Como diria um amigo que falava pouco inglês, mas estava aprendendo: “Please, no names”. (risadas). É uma grande tendência hoje. Tendência o cacete (risadas). Isso não é jornalismo.
“Leio de tudo porque algumas vezes tenho que ler para saber.
Nem sempre são livros que tenho prazer em ler.”
Portal3 – Como tu te abasteces de informações? Qual a tua rotina de leitura de sites, jornais…
Tânia – Estou sempre com a internet ligada, rolando por tudo que é site. Leio a Folha de São Paulo, Estadão, assino pela internet, e leio todos os dias. Estou em contato com meus colegas, recebo muitas informações. Estou dentro de todos os sites do mundo. Leio tudo que sou capaz de ler, tudo que o tempo me permite ler. Vejo pouca TV, apesar de ter TV no quarto. Às vezes deixo a TV ligada e fico lendo para esperar o Saia justa ou deixo a TV ligada esperando para ver uma entrevista no Programa do Jô. Então cuido do meu tempo também, mas acho que isso, só depois de velha, a gente consegue, com maturidade.
Portal3 – Qual é a diferença entre trabalhar no rádio e na TV?
Tânia –Gosto mais de fazer rádio porque o rádio não exige tanto da tua parte física. Exige muito mais daquilo que tu pões e que tu fazes. A TV é
muito visual. Cada vez menos quero me expor em TV, pois não quero fazer plástica, não quero ficar virando uma caricatura de mim mesma. As pessoas exigem isso. Olha a coitada da Vera Fischer, está internada em uma clínica, porque não tem mais a performance visual que tinha quando jovem. Se tu não te adaptar contigo mesma, vai te adaptar com o quê? Se não te adaptar com teu corpo envelhecendo, com tua vida modificando, com a própria sexualidade, com teus hormônios… Tenho uma amiga que adoro quando ela diz: “Estou em paz com meus hormônios”. Isso quer dizer que a sexualidade dela na velhice está mais em paz, mais tranquila. Tudo isso faz parte da adaptação. Talvez os homens não se adaptem tanto quanto as mulheres.
Portal3 – Saber envelhecer é importante?
Tânia – Em 2011 faço 69 anos, ano que vem faço 70 e quero dar uma festa linda. Meus filhos já estão bolando uma festa para os 70, e eu quero festejar muito minha vida, minha idade, a sorte que tive de chegar até aqui com minha família, com todas as coisas que amo e fazendo aquilo que gosto. Vivo com muita dignidade com as minhas coisas, com as coisas do meu marido, que é médico. Ele também não tem essa aflição de ir para a mídia, nunca teve essa ânsia de se exibir, de se mostrar como certas pessoas têm. No jornalismo, quanto mais pacífica for a tua vida profissional, mais legal tu vais ser como jornalista, mesmo no jornalismo investigativo, policial. Tem que ter muito cuidado com as outras pessoas, com aquilo que tu tratas. O pessoal atropela, pisa por cima de todo mundo…
Portal3 – Estamos em uma casa cheia de livros, muitos livros. O que tu mais gostas de ler?
Tânia – Leio de tudo porque algumas vezes tenho que ler para saber. Nem sempre são livros que tenho prazer em ler, mas amo ler Clarice Lispector. Leio um conto da Clarice ou qualquer coisa por dia porque ela é a minha oficina de literatura.
Portal3 – Tu te achas no meio de tantos livros?
Tânia – Me acho. Onde eu ando, carrego os pockets da L&PM. Estou lendo Malaguetas, perus e bacanaço, do João Antonio, que é um livro de homem escrito por homem, só sobre histórias de futebol. Quero saber como é essa vida masculina. Gosto muito de ler filosofia também, além de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Jorge Luis Borges. Tenho um espaço só para os livros de escritoras como Lya Luft, Clarice Lispector, Cláudia Laitano, Martha Medeiros, Célia Ribeiro. Minhas amigas todas ficam aqui.
“Às vezes pego meus livros para ler de novo, que nem lição de casa, pois tu
só aprende a escrever lendo, não há outro jeito para aprender a escrever.”
Portal3 – Tem muita coisa nas tuas estantes que tu não leste ainda?
Tânia – Sim, tem muita coisa. Mas grande parte li: toda a coleção dos Sete pecados capitais, Pablo Neruda.
Portal3 – Fazes uma lista de prioridades?
Tânia – Eu colocava na minha bandeja que quebrou (ao lado da cama). Tem Philip Roth e Paul Auster, que eu adoro. Amo Paul Auster e Philip
Roth. Gabriel García Márquez, William Shakespeare, Guimarães Rosa e Machado de Assis são uns livrões enormes. De vez em quando, pego um e leio um pouco. Tem outro que é a minha bíblia, que é do Guimarães Rosa: Grande sertão: veredas. Fizemos um trabalho sobre os contos de Guimarães Rosa e tentamos escrever feito Guimarães, foi muito legal. É quase um tema de casa ler Guimarães Rosa. Tem uma coisa que não li ainda que é (James) Joyce, que é uma coisa muito difícil. Eu já comecei a ler, mas não tive saco. Quando ficar mais velha e tiver mais tempo, leio Joyce. Tem um que está na minha lista, que ainda não li, que é o Guerra e paz, porque ler Tolstói é fundamental para quem quer escrever legal. Tu tens que ler Tolstói. Tenho várias coisas dele. Às vezes pego para ler de novo, que nem lição de casa, pois tu só aprende a escrever lendo, não há outro jeito para aprender a escrever. E tu notas quando alguém escreve legal e que tem leitura naquele corpo. Outro dia, minha neta me falou: “Mas tu só me dá livro e camiseta, vovó”. Respondi que é porque quero que ela tenha uma boa biblioteca, enorme. Ela guardava os livros na gaveta, e eu disse: “Não deixa os livros na gaveta, livro a gente não põe em gaveta, livro a gente bota na prateleira para ler e olhar porque os livros respiram, eles precisam respirar”. Ela ficou muito impressionada. Antes de dormir ela vai lá e abre a gaveta para os livros respirarem (risos). Vou dar uma prateleira para ela.
Portal3 – Tens ciúmes dos teus livros?
Tânia – Tenho, porque já perdi vários.
Portal3 – E em cinema, tu és muito ligada?
Tânia – Eu fui muito ligada em cinema. Tenho livros sobre cinema.
Portal3 – E do que tu gostas de música?
Tânia – Música boa. Escutei o último disco do Chico Buarque no computador, mas agora vou comprar. Gosto dos americanos. Gostava muito da Amy Winehouse também, mas esse não vou comprar para não dar dinheiro para os abutres (risos).
Portal3 – Quantos filhos tens?
Tânia – Tenho dois filhos: o Fabiano, do casamento com o Geraldo, que nasceu em São Paulo, mas veio comigo para Porto Alegre e fez a vida aqui. Fez universidade, tudo por aqui. Fez Publicidade e Propaganda. Não sei por que, né? (brinca) Hoje ele é publicitário. O Diogo é o mais moço, do casamento com o Felício, que foi encomendado na nossa casa em Gramado (risos). Ainda mora comigo, mas vai sair de casa agora pra morar com outra mulher que não sua mamãe (risos).
Portal3 – Tiveste teus filhos em dois momentos bem marcantes da tua vida. O primeiro quando estava voltando para o Brasil, para São Paulo, e o segundo quando estavas começando a exercer o jornalismo novamente em Porto Alegre. Como foi?
Tânia – No auge da minha profissão. Tanto que todo mundo queria ir ao meu casamento com o Felício, e foram apenas 20 pessoas, porque eu não queria abrir, não queria. Passei por quase todas as emissoras de rádio e de TV de Porto Alegre. Só não trabalhei no SBT. Trabalhei na Guaíba, na Pampa, que agora é Record, na RBS… Enfim, trabalhei em todos os meios de comunicação, só nunca fiz jornal.
Portal3 – Não tens vontade?
Tânia – Quero ficar fazendo rádio, que eu adoro, porque não precisa pintar os olhos e essa coisa toda (risos). Já acordo escutando rádio, bem baixinho, para não acordar meu marido. Acho mais difícil fazer rádio, porque TV basta colocar um pôr-do-sol, uma imagem de qualquer coisa, e todo mundo fica: “Ohhhhh!”. No rádio tem que ter conteúdo, não pode dizer bobagem.











